News Farma (NF) | Quais são os principais objetivos do Plano Europeu de Luta Contra o Cancro, lançado em 2019?
Dr. Aníbal Marinho (AM) | O Plano Europeu de Luta Contra o Cancro tem como objetivo diminuir a carga associada à gestão da doença oncológica, para os doentes, familiares/cuidadores, sociedade e sistemas de saúde, apoiando os Estados-Membros na melhoria do controlo do cancro e da prestação de cuidados. Este plano aborda as desigualdades na gestão da doença oncológica, nos Estados-Membros e entre eles, definindo ações para apoiar, coordenar e complementar os esforços dos Estados-Membros. Foi adotado pela Comissão Europeia em fevereiro de 2021 com um orçamento de €4 mil milhões e inclui quatro pilares de intervenção: prevenção; deteção precoce; diagnóstico e terapêutica; e qualidade de vida. O próximo passo será definir e garantir a implementação efetiva deste plano nos Estados-Membros.
NF | Apenas posteriormente é que foi incluída a terapêutica nutricional dos doentes neste Plano. Porque não foi incluída antes?
AM | A terapêutica nutricional continua a ser negligenciada pelos decisores políticos e pelos profissionais de saúde, devido à falta de conhecimento que possuem sobre este tema. Quando confrontados com argumentos baseados na evidência clínica, relativa ao papel da terapêutica nutricional na gestão da malnutrição associada à doença oncológica, a decisão de incluir este tópico no Plano Europeu de Luta Contra o Cancro tornou-se inevitável.
NF | Que benefícios tem a terapêutica nutricional nos doentes oncológicos?
AM | O acesso a uma intervenção nutricional atempada, desde o diagnóstico da doença oncológica, resulta na melhoria dos resultados clínicos e, por consequência, em poupanças significativas dos custos de saúde, como: ganho ou manutenção do peso corporal/massa muscular; melhoria da resposta às terapêuticas antineoplásicas e sobrevida expectável; menor taxa de interrupções, complicações e infeções; e manutenção da independência e da qualidade de vida.
NF | Existe uma elevada prevalência de malnutrição associada à doença oncológica?
AM | Estima-se que um em cada três doentes oncológicos estejam malnutridos. É no ambulatório/domicílio que esta prevalência de malnutrição no doente oncológico apresenta maior expressividade.
NF | Porquê?
AM | Os doentes oncológicos apresentam maior risco de malnutrição devido aos efeitos da terapêutica antineoplásica, pela falta de apetite e outros sintomas associados, e pelas alterações do metabolismo inerentes ao cancro que aumentam as necessidades nutricionais diárias. Apesar da terapêutica nutricional ser uma intervenção custo-efetiva, a malnutrição associada à doença oncológica continua a ser subdiagnosticada e subtratada. Na Europa, estima-se que apenas 30 a 60% dos doentes oncológicos, com risco de malnutrição têm acesso a intervenção nutricional.
NF | Quais são as consequências?
AM | A malnutrição associada à doença oncológica afeta todos os tipos de cancros, apresentando consequências clínicas e económicas relevantes, entre eles: perda de massa e força muscular; aumento da toxicidade e comprometimento da tolerância às terapêuticas antineoplásicas; aumento da mortalidade, das complicações clínicas e maior risco de infeções; redução da independência e qualidade de vida. Na União Europeia, a malnutrição associada à doença oncológica representa anualmente um custo de €17 mil milhões.
NF | Qual é a realidade desta malnutrição em Portugal? E nos outros Estados-membros?
AM | O acesso a cuidados de alta qualidade deverá acarretar o direito implícito a cuidados nutricionais adequados, incluindo um suporte nutricional atempado, pelo que cabe às autoridades locais de cada Estado-membro efetivar o direito à terapêutica nutricional e torná-lo visível nos seus planos e estratégias, garantindo que os doentes oncológicos têm acesso a cuidados nutricionais equitativos. A grande diferença, entre Portugal e os restantes Estados-membros, é a inexistência de acessibilidade para a nutrição clínica no ambulatório, a qual é a solução terapêutica efetiva para quando a alimentação habitual não é suficiente para suprir as necessidades nutricionais diárias. Em Portugal, urge garantir o acesso equitativo à terapêutica nutricional e nutrição clínica, para todos os doentes oncológicos.


