“Procurámos deixar a Cardiologia melhor do que a encontrámos”

27/04/21
“Procurámos deixar a Cardiologia melhor do que a encontrámos”

Os dois anos de mandato do Prof. Doutor Victor Gil, como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), chegaram ao fim. Em entrevista à News Farma, o especialista mencionou os pontos altos, bem como os principais desafios que enfrentou durante este período, muito devido à pandemia da COVID-19. Como nota final, saudou a nova presidência e mostrou-se confiante com o futuro da sociedade. Leia a entrevista completa.

News Farma (NF) | Está a chegar ao fim de dois anos de mandato como presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Certamente que foram anos cheios de momentos marcantes, mas quais gostaria de destacar?
Prof. Doutor Victor Gil (VG) | Foram dois anos muito intensos, como habitualmente acontece na SPC. Eu penso que isto se verifica porque a sociedade está muito direcionada para o serviço da comunidade: tanto através das ações de educação para a saúde, cujo objetivo é aumentar a literacia em saúde cardiovascular; como por promover a ciência nos diferentes serviços e na formação dos médicos.
A nossa missão, ao longo deste período, foi a de alcançar uma melhor saúde cardiovascular dos portugueses, e, para tal, foi preciso investir muito na formação dos cardiologistas nacionais, porque, se os elevarmos a nível científico, naturalmente que serão melhores profissionais, responderão melhor às necessidades dos doentes.
A nível de momentos marcantes, tivemos muitos. Logo no início, o nosso mandato coincidiu com o 70.º aniversário da SPC, e, na sessão comemorativa deste marco, o Sr. Presidente da República, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou a sociedade como Membro Honorário da Ordem da Instrução Pública.
Outro marco foi o fórum da “Revista Portuguesa de Cardiologia”, porque chamámos para a mesa redonda personalidades como o Prof. Doutor Bagão Félix e o Sr. General Ramalho Eanes, que são duas pessoas que nada têm a ver com a Cardiologia, mas que ajudaram a partilhar esta mundividência que á a ciência. Fizemos outro fórum sobre sustentabilidade e inovação, mas aqui abordámos temas como a futilidade, a redundância e a ecologia, tornando-o riquíssimo em ideias. Com a realização destes eventos, tentámos marcar a diferença, não para sermos diferentes, mas para trazermos inovação no futuro.
O acordo de filiação da Fundação Portuguesa de Cardiologia com a SPC é um marco histórico de imensa importância, que nos levou, de facto, a fazer muitas iniciativas em conjunto, como, por exemplo, a “Coração de Esperança”, para assinalar o Dia Mundial do Coração, em 2019, ou ainda a “O Dia da Boa Onda”.
Em suma, olhando para o que foi feito nestes últimos dois anos, faz-nos sentir honrados pela confiança que depositaram em nós e, naturalmente, que temos aquela sensação de dever cumprido.
Eu não gosto muito de lugares comuns, mas terei de dizer que não foi um esforço individual, mas de equipa. Como diria o fundador do escutismo, na sua mensagem de despedida aos escuteiros, "Procurem deixar o mundo um bocadinho melhor do que o encontraram" e nós esforçámo-nos para deixar a Cardiologia um bocadinho melhor do que a encontrámos. Se o cumprimos ou não, será avaliado por outros, mas que nos forçámos, esforçámos!

NF |O último ano do mandato foi também o primeiro da pandemia. De alguma forma, obrigou a rever as prioridades? E quais foram os principais desafios que marcaram o seu mandato?
VG | Tínhamos várias ações presenciais que não foi possível concretizar, como as pensámos inicialmente. Como é óbvio, tivemos de nos adaptar. Exemplo disso foi a iniciativa que realizámos no Dia Mundial do Coração, que contou com a colaboração da Faculdade de Medicina, em que iluminámos a Torre de Belém de vermelho.
Neste último ano, reinventámos o processo e passámos a utilizar a Internet. Eu diria que o principal desafio que enfrentámos foi transformar o Congresso Português de Cardiologia – um dos congressos mais densos em termos científicos – num evento digital. Foi uma obra épica, que conseguimos concretizar com muito sucesso na primeira edição, e que, certamente, terá o mesmo sucesso na segunda.
E eu aqui, obviamente, tenho de sublinhar os nomes das suas presidentes: a Dr.ª Brenda Moura e a Dr.ª Regina Ribeiras, que conseguiram montar congressos digitais com uma qualidade extraordinária.

NF | E quais foram os principais projetos que desenvolveu ao longo do seu mandato?
VG | Retomando as comemorações do 70.º aniversário da SPC, fizemos inúmeras iniciativas para assinalar a data. Realizámos um “Ciclo de Cinema”, na Cinemateca, em que todos os filmes estavam relacionados com o coração, e fizemos um concerto intitulado “Concerto da Família”, no Teatro Itália, cuja particularidade era que todos os músicos e cantores que participaram tinham de estar relacionados de alguma forma com a Cardiologia.
Depois, tivemos uma série de projetos relacionados com a pandemia da COVID-19. Várias iniciativas de formação, de esclarecimento da população e também uma tentativa de aconselhamento das autoridades, em que produzimos documentos normativos sobre como se deve proceder, por exemplo, em caso de cateterismos.
Em paralelo, mantivemos sempre toda a atividade regular da SPC. Aqui posso frisar as ações de formação através da Academia Cardiovascular. O que mudou foi a forma de como passou a ser feita, pois começou a utilizar os meios digitais. No entanto, continuámos a ter todas as nossas ações formativas. Mesmo atividades como o SAVIC – uma iniciativa de formação relacionada com o suporte de vida, particularmente em casos de doentes com insuficiência cardíaca –, que tiveram de fazer uma pausa durante o confinamento, já foram retomadas.
De salientar também a atividade que desenvolvemos no Dia Mundial da Mulher, que foi realizada em duas vertentes: o programa “Bem Me Quer”, que focou a doença coronária na mulher; e o papel da mulher cardiologista, porque, atualmente, ainda sentimos que não existe igualdade de oportunidades entre géneros nesta área. No entanto, a direção a que presidi é bastante paritária, porque entendemos que o mérito das mulheres cardiologistas é igual ao dos homens.
Participámos em inúmeros webinars, nacionais e internacionais, em formato presencial, mas também nos digitais.

NF | De que forma é que a pandemia da COVID-19 afetou os doentes diagnosticados com doenças cardiovasculares? E o diagnóstico propriamente dito?
VG | Em primeiro lugar, os doentes cardiovasculares constituem uns dos principais grupos de risco. Ainda por cima, como a doença cardiovascular também é mais prevalente nos doentes mais idosos, juntaram-se aí duas desgraças, levando a que muitas pessoas que morreram tivessem essas condições.
Nós alertamos as autoridades para isso, e um dos grupos mais prioritários para a vacinação, estando na fase 1, foram os doentes com doenças coronárias e insuficiência cardíaca.
Além disso, houve doentes que não pediram ajuda a tempo e é verdade que houve menos intervenções no que diz respeito aos enfartes agudos do miocárdio. Relativamente aos atrasos de diagnóstico, estamos a tentar recuperá-los.
Mas, não há dúvidas de que há uma fatura de problemas causada pela pandemia, que afetou os doentes cardiovasculares, estando estes infetados ou não.

NF | A que horizonte vamos conhecer a repercussão deste ano do ponto de vista dos resultados em saúde?
VG | A pandemia lançou alguns desafios, mas pode vir a lançar oportunidades. Um dos problemas que existe no nosso sistema de saúde é o da futilidade e da redundância. Ou seja, existem várias pessoas que andam constantemente em consultas e que, em boa verdade, talvez não necessitem assim tanto quanto isso.
Nós, se calhar, temos de ser um bocadinho seletivos e fazer só o que tem de ser. Ao deixar de termos tanto o culto da rotina, talvez ganhemos espaço para dar mais atenção a quem precisa de mais atenção. Esse pode ser um dos grandes desafios que a pandemia nos deixa.

NF | Qual o papel, hoje em dia, da SPC como sociedade científica?
VG | É uma organização ouvida com a maior das atenções pelos portugueses. É também ouvida pela tutela, pelos nossos parceiros, pelas várias entidades que estão relacionadas com a saúde, como é o caso da indústria farmacêutica, e pelas entidades públicas e privadas.
Portanto, é uma sociedade honrada, prestigiada e independente. A SPC tem um papel incontornável e é seguramente uma das organizações congéneres no que diz respeito à Cardiologia em Portugal.

NF | Como olha para o caminho que a nova direção terá pela frente?
VG | Antes de mais, gostava de mencionar o que a minha direção vai deixar para o futuro. No meu entender, legamos três coisas muito importantes: uma delas foi a reorganização interna, uma vez que, finalmente, contratámos um diretor executivo, o Dr. António Sá-Água; a outra foi a evolução em definitivo do CNCDC, que, apesar de manter o mesmo acrónimo, passa a significar Centro Nacional de Conhecimento e Desenvolvimento em Cardiologia; e, por último, mas não menos importante, o lançamento do grande estudo da área da insuficiência cardíaca (IC), o Estudo PORTHOS, que tem como objetivo voltar a caracterizar a IC, 20 anos depois do estudo EPICA, e que conta com o alto patrocínio do Sr. Presidente da Républica, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.
A par disto, estamos a trabalhar de mãos dadas com a secretária de Estado da Saúde para tentar que passe a existir uma lei que promova o registo cardiológico nacional obrigatório, à semelhança do que se passa com o registo oncológico nacional, e também fomos um dos seis países escolhidos a participar no projeto internacional EURO HEART.
Aproveito para mencionar que vamos ampliar, em breve, as instalações da delegação norte e da Academia Cardiovascular.
Assim sendo, eu diria que este é o grande legado que nós deixamos.
No que diz respeito à nova direção, olho com muita positividade para o percurso que acredito que venha a ter pela frente. Primeiro, por serem quem são: o Prof. Doutor Lino Gonçalves é uma das maiores e mais prestigiadas figuras da Cardiologia nacional e foi um companheiro de primeira hora da minha direção, estando sempre connosco a ajudar na tomada das grandes decisões.
A futura direção, que vai ser eleita no próximo CPC, é, de facto, constituída por um conjunto de pessoas de altíssima qualidade, que vão elaborar novas ideias, que, certamente, irão acrescentar valor à SPC; não tenho dúvidas disto.
Portanto, eu diria que o futuro da SPC vai ser muito bom, asseguradíssimo, e que vão fazer mais e melhor do que nós fizemos.

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