É a telemedicina uma solução para o futuro?

07/05/21
É a telemedicina uma solução para o futuro?

“A telemedicina: solução de recurso no contexto pandémico ou um novo futuro?” foi o título da terceira sessão a colocar a pessoa que vive com VIH no centro da discussão. Contando com a moderação do Dr. António Diniz, o webinar teve como palestrantes o Dr. Tiago Teixeira e a Dr.ª Cristina Valente.

O terceiro debate, de um ciclo de quatro, decorreu em ambiente virtual e também se destaca por colocar a pessoa que vive com VIH no centro da discussão. Estas sessões são organizadas pela News Farma, em parceria com o Movimento #PensaPositvo e com o apoio da Gilead. Nestas sessões, médicos especialistas e algumas das associações que apoiam este movimento debatem temas relacionados com a prevenção, o tratamento ou o estigma.

O último webinar, que decorreu no dia 22 de abril, contou com a participação do Dr. Tiago Teixeira, diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho e da Dr.ª Cristina Valente, assistente hospitalar graduada em Infecciologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), e com a moderação do Dr. António Diniz, vice-presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da SIDA.

Depois de apresentar os dois infecciologistas, o Dr. António Diniz deu o “pontapé de saída” ao frisar que se iria “falar de telemedicina numa telereunião”, portanto referiu ser uma sessão com um título “ajustado aos acontecimentos”. Pediu, pois, a opinião dos dois especialistas sobre o papel da telemedicina: se efetivamente é uma “solução de recurso” ou se “abre perspetivas a um novo futuro em relação à abordagem do seguimento dos doentes infetados por VIH e à própria relação entre o médico e o doente”.

Na opinião da Dr.ª Cristina Valente, esta é uma oportunidade para aprender com a experiência. “Provavelmente, muitos de nós já fazíamos telefonemas aos nossos doentes por variadas razões e a pandemia levou às consultas à distância”, começou por comentar, salientando haver mais vantagens que desvantagens. Porém, ressalvou que “tem de haver aperfeiçoamento”.

Além disso, a infecciologista lembrou o facto de muitos dos doentes que vivem com VIH, se associam fatores tais como a pobreza, dependências, isolamento e escassos apoios sociais. “Algumas pessoas têm de pedir dinheiro emprestado para virem a uma consulta”, exemplificou e disse que, em algumas situações, não serão necessárias deslocações ao hospital para levantar a medicação, pois esta poderá ser disponibilizada nas farmácias comunitárias e, em alguns casos, algumas consultas podem ser realizadas virtualmente, contudo as análises requerem a presença da pessoa. “Vejo vantagens económicas e o facto de a pessoa não ter de pedir no local de trabalho para faltar ou chegar mais tarde”, disse e apontou também a questão da privacidade e o receio do risco de infeção pelo SARS-CoV-2 em ambiente hospitalar por parte de muitos doentes. “Estes são os pontos positivos, globalmente, desta forma de fazer a consulta”, frisou.

O Dr. Tiago Teixeira manifestou concordar “inteiramente com a visão da Dr.ª Cristina Valente”. Ou seja, nas suas palavras, “há uma comodidade desta tipologia de consultas e, por outro lado, há vantagens económicas, por exemplo, não usando os transportes. Também pode permitir maior flexibilidade de horários. A questão da privacidade também é muito importante”. Todavia, o médico sublinhou que “a chamada telefónica é uma visão minimalista da teleconsulta”, sendo que mencionou “a visão maximalista, que é a teleconsulta integrada em ferramentas digitais de várias dimensões”.

Por seu turno, o Dr. Tiago Teixeira apontou uma grande desvantagem. “Nós médicos somos treinados, formal e informalmente, na arte da consulta presencial e não tivemos nenhum tipo de treino na arte da teleconsulta, quer chamada telefónica, quer videochamada, quer na integração digital. Se avançarmos para essa modalidade, temos de nos dedicar mais porque fazer uma chamada não é o mesmo de teleconsulta”, explicou.

Acrescentou haver “um lado da teleconsulta” que suscita preocupação. Está relacionado com uma componente não funcional da arte da consulta médica, “em que olhamos para o doente e conseguimos extrair outras informações através da comunicação não-verbal, inclusive questões não relacionadas com a consulta, isto porque o doente é muito mais que a doença”. Para o Dr. Tiago Teixeira este modo de teleconsulta é muito eficiente, mas tem uma barreira: “a componente não-verbal fica diminuída e ficam limitadas as restantes dimensões da vida da pessoa, como a família, isto é, fica negligenciada a dimensão mais humana da consulta”.

Quando lançada a questão acerca da forma como tem sido ultrapassada a questão de não ser possível observar o doente em teleconsulta, a Dr.ª Cristina Valente apontou que é uma clara desvantagem numa consulta desta natureza. “É fundamental realizar um exame objetivo pelo menos uma vez por ano”, afirmou a médica do CHUC, que exemplificou com o aumento de peso, referindo que “como não é percetível, pergunto, embora saiba que alguns doentes não dizem a verdade”. Também mencionou que nas pessoas que têm “grandes consumos, é presencialmente que verificamos certos aspetos e abordamos o doente”.

Integração digital requer literacia

O Dr. Tiago Teixeira referiu que o foco da integração digital está no valor para o utente. Segundo disse, “as ferramentas digitais podem ajudar no sentido de por exemplo haver um serviço web que funcione como canal de comunicação e previamente à consulta o doente preencher numa app um questionário, para ganharmos tempo, ou ter a possibilidade de ver os resultados das análises e receber alertas se houver algo fora do normal que tem de ser verificado”. Sublinhou, contudo, que “terá de haver um grau de literacia digital, portanto não é para todas as pessoas”.

Para o especialista é um conceito “revolucionário” que será o caminho, até porque “há um mundo de opções na área da inteligência artificial”, e deu mais um exemplo: “A existência de sistemas que criam textos com base na voz, criando registos parametrizados, permitindo ganhar tempo e na consulta ter mais tempo para falar com as pessoas.”

Mas serão os hospitais adaptáveis a esta possível realidade? Uma questão lançada pelo moderador e à qual a Dr.ª Cristina Valente respondeu referindo que “neste momento estamos ainda longe desta realidade, apesar de ser aliciante” e lembrou situações que ocorreram nas últimas 24 horas. “Um doente a quem enviei uma mensagem, porque tinha de ter vindo a uma urgência, respondeu para lhe ligar por não ter saldo no telemóvel para me ligar. Outro enviou um SMS a pedir para lhe ligar e ainda um outro enviou uma mensagem a indicar a hora exata para eu lhe ligar”, partilhou e frisou: “A maior parte dos meus doentes nem sabe ler uma mensagem e nem querem receber a receita via telemóvel.” Assim, na opinião da infecciologista, as aplicações faladas teriam de ser dirigidas a uma franja da população. “Estamos longe, mas é um projeto exequível, com boa vontade.”

De acordo com o Dr. Tiago Teixeira, “no futuro a curto prazo, penso que vai funcionar um modelo misto. Por enquanto, são muitos os doentes que não têm capacidade para gerir estas ferramentas, mas alguns podem usar”. Por outro lado, disse estar “preocupado com a qualidade da relação com o doente, pois o lado mais humano perde-se um pouco com o digital. Temos de aprender a fazer estas consultas”.

O Dr. Tiago Teixeira salientou que os utentes perceberam as vantagens de terem consultas à distância e que por esse motivo não deverão querer regressar ao sistema meramente presencial. Também os clínicos deverão desejar manter o sistema, “uma vez que já experimentaram e perceberam como funciona”, acrescentou e sugeriu que seria fundamental começar a introduzir questionários online sobre diversos temas, desde estigma à qualidade de vida, para “sabermos mais informações sobre a pessoa”.

A Dr.ª Cristina Valente indicou aquilo que correu menos bem no seu local de trabalho e apontou o que poderia ser melhorado. “A Farmácia Hospitalar (FH) envia para a farmácia comunitária a medicação, nos casos em que os doentes autorizam, mas se há marcação de uma consulta presencial, a FH obriga a que o doente a comparecer. Se uma pessoa tiver uma consulta presencial, o hospital envia um SMS, mas se a consulta for telefónica, esse alerta já não é enviado, levando a esquecimentos”, exemplificou.

Os três participantes mostraram unanimidade relativamente ao facto de se manterem as consultas à distância e, nos casos em que não há possibilidade por parte da pessoa, uma das soluções apresentada foi a de a mesma ser feita a partir do centro de saúde da área de residência da pessoa. Trata-se de “uma solução que já acontece para ultrapassar os problemas digitais e já se faz com Dermatologia em alguns locais”, disse o Dr. Tiago Teixeira.

A Dr.ª Cristina Valente lançou uma sugestão para auscultar a opinião das pessoas que vivem com VIH. “Se cada um de nós fizesse dez telefonemas a perguntar acerca da satisfação da teleconsulta obtínhamos a resposta acerca do nível de satisfação”, disse. “Temos de avaliar, perguntar às pessoas e pedir sugestões para melhorarmos. Talvez este seja o ponto de partida para fazer valer mais esta ferramenta”, corroborou o Dr. Tiago Teixeira.

O Dr. António Diniz, que referiu as questões que iam sendo colocadas por parte de pessoas ligadas a organizações que assistiam à sessão, sublinhou que os períodos de crise fazem avançar e pensar. “Esta é uma boa altura para repensarmos algumas das metodologias que são usadas e só pode ser feito com o envolvimento das pessoas com quem trabalhamos – as pessoas que vivem com VIH”, observou. “Como objetivo a médio e longo prazo, creio que a ideia da integração digital é um caminho que devemos percorrer e incentivar. A telemedicina veio para ficar e tem alguns aspetos que podem ser melhorados, como os questionários pré-consulta, a vídeo-consulta em vez da chamada telefónica e é excelente a ideia de envolver os cuidados de saúde primários. O conjunto de problemas que foram levantados, desde o modelo de dispensa da medicação à forma como é feita a marcação da consulta, devem ser repensados e melhorados. Temos de seguir em frente e trilharmos este caminho porque todos retiram benefício”, sumarizou.

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