Na resposta à pandemia de COVID-19, alguns países adotaram estratégias de eliminação – ação máxima para controlar o SARS-CoV-2 e parar a transmissão comunitária o mais rapidamente possível – enquanto outros escolheram estratégias de mitigação – ação gradual direcionada para reduzir os casos, a fim de não sobrecarregar os sistemas de saúde.
Os autores do estudo compararam mortes por COVID-19, crescimento do produto interno bruto (PIB) e rigor das medidas de confinamento durante os primeiros 12 meses da pandemia nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que optaram por eliminação ou mitigação.
As mortes por COVID-19 por um milhão de habitantes nos países que optaram pela eliminação (Austrália, Islândia, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul) foram cerca de 25 vezes inferiores às de outros países da OCDE que favoreceram a mitigação (entre os quais Portugal).
A eliminação foi também superior à mitigação em termos do crescimento médio do PIB durante a maior parte do tempo analisado. O crescimento do PIB voltou aos níveis pré-pandémicos no início de 2021 nos cinco países que optaram pela eliminação, enquanto que o crescimento é ainda negativo para os outros 32 países da OCDE.
Apesar das suas vantagens económicas e de saúde, a estratégia de eliminação tem sido criticada por restringir as liberdades cívicas. Para contestar esta alegação, o estudo utilizou um índice desenvolvido por investigadores da Universidade de Oxford para analisar o rigor das políticas de contenção e de encerramento que restringem as liberdades das pessoas, tais como o encerramento de escolas, lojas, e restaurantes ou restrições de movimento. Entre os países da OCDE, as liberdades foram mais severamente afetadas naqueles que optaram pela mitigação, enquanto que as medidas de encerramento rápido - em linha com a eliminação - foram menos rigorosas e de duração mais curta.
Os autores argumentam assim que os países que optam por uma ação rápida para eliminar o SARS-CoV-2 - com o forte apoio dos seus habitantes, também protegem melhor as suas economias e minimizam as restrições às liberdades cívicas em comparação com aqueles que lutam pela mitigação. “Olhando para o futuro, a vacinação em massa contra a COVID-19 é a chave para regressar à vida normal, mas confiar apenas nas vacinas para controlar a pandemia é arriscado devido à sua implementação irregular, à imunidade limitada no tempo e ao aparecimento de novas variantes de SARS-CoV-2”, pode ler-se.
Este estudo foi mencionado num artigo do New York Times, publicado a 3 de maio, o qual reúne as opiniões de vários especialistas e respetiva evidência científica que vêm suportar que a imunidade de grupo é uma meta que dificilmente será atingida e que a erradicação do SARS-CoV-2 não será possível num futuro próximo. Assim, a estratégia de eliminação local do vírus torna-se essencial. As comunidades devem-se manter vigilantes através de testagem e rastreamento, de modo a que as autoridades de saúde possam reagir rapidamente a qualquer reintrodução do vírus e impedir um potencial surto.
O comentário no The Lancet conclui que a ação nacional por si só é insuficiente e que é necessário um plano global para sair da pandemia. Os países que optarem por viver com o vírus provavelmente constituirão uma ameaça para outros países, nomeadamente aqueles que têm menos acesso às vacinas. As consequências das diferentes respostas governamentais à COVID-19 serão duradouras e estender-se-ão para além do fim da pandemia. Os ganhos económicos e políticos obtidos pelos países que pretendem eliminar o SARS-CoV-2 irão provavelmente compensar a longo prazo.


