Prof. Doutor Estevão Lima: “A cirurgia robótica valoriza o trabalho multidisciplinar”

07/07/21
Prof. Doutor Estevão Lima: “A cirurgia robótica valoriza o trabalho multidisciplinar”

A propósito da “Extraperitoneal robotic prostatic surgery”, masterclass da CUF Academic Center, a 28 de junho, o coordenador de Urologia da CUF, o Prof. Doutor Estêvão Lima, explicou de que forma a CUF se diferencia na abordagem à cirurgia robótica e falou-nos sobre o desenvolvimento de uma nova técnica pioneira, desenvolvida pela equipa de Urologia da CUF - “CUF Tecnique”- que está a atrair atenções internacionais. Nesta entrevista assinalou ainda o facto de a cirurgia robótica valorizar o trabalho multidisciplinar de toda a equipa.

News Farma (NF) | Esta masterclass prepara os formandos para uma cirurgia muito específica. Porque surgiu a necessidade de promover esta formação?

Prof. Doutor Estevão Lima (EL) | A “1st Masterclass - Extraperitoneal robotic prostatic surgery” surgiu com o objetivo de transmitir a especialistas de urologia a “CUF Technique" - uma abordagem pioneira que desenvolvemos e começamos a aplicar recentemente.

Há já 5 anos que realizamos a prostatectomia com a utilização do robô. A utilização do robô permite ao doente, após a cirurgia, uma rápida recuperação da continência urinária e manter a atividade sexual. A maioria dos centros a nível mundial utiliza uma abordagem transperitoneal, tal como fizemos durante alguns anos.

Recentemente, fomos pioneiros no desenvolvimento de uma abordagem extraperitoneal, uma técnica que evita o contacto com as vísceras, como o intestino. Chamamos a essa técnica “CUF Technique”.

Tradicionalmente, quando as pessoas operam a próstata por robô, fazem uma abordagem por via intraperitoneal; ou seja, dentro da própria barriga, em contacto com as vísceras.

Na CUF desenvolvemos uma técnica que permite abordar a próstata com o robô, mas num espaço criado artificialmente por um balão à frente da bexiga, não entrando em contacto com as vísceras.

Somos o único centro em Portugal a fazer este tipo de abordagem que, recentemente, teve honras de destaque numa publicação internacional sobre técnicas de prostatectomia. Esta técnica tem motivado, inclusivamente, demonstrações cirúrgicas ao vivo em congressos de urologia internacionais. 

Entretanto, dado que muitos urologistas começaram a entrar em contacto com a realização da prostatectomia robótica, mas apenas por via intraperitoneal, considerámos que era importante partilhar as vantagens desta abordagem diferenciada. E assim aconteceu esta masterclass, porque tal como o conceito da música, em que o professor dá uma explicação mais individualizada e personalizada, estas aulas também têm um número reduzido de participantes de forma a que esta técnica seja devidamente apreendida. Nesta primeira ação formativa, tivemos quatro alunos, mas a elevada procura indica que, para o ano venhamos a promover mais iniciativas do género.

NF | No final, os formandos estão completamente habilitados a realizar esta cirurgia? Qual a importância da formação contínua?

EL | Toda a formação contínua é extremamente importante, a formação deve fazer parte da vida, nomeadamente, de um cirurgião. Em termos cirúrgicos, as técnicas estão sempre a evoluir e a formação deve fazer parte da nossa vida. Para fazer cirurgia robótica é preciso estar certificado nessa componente específica, outorgada pelo fabricante dos robôs. Resulta daí que esta formação é dirigida a quem esteja certificado e quer entrar em contacto com a cirurgia robótica.

NF | Quais os impactos que a cirurgia tem na qualidade de vida do doente a longo prazo?

EL |A grande mais-valia do robô é a simplificação do processo. Quanto mais simples, melhor. E com o robô isso acontece. Aquele que era um procedimento feito por laparoscopia, a robótica veio facilitar a curva de aprendizagem. Veio tornar mais fácil desenvolver o procedimento por robô, do que por via laparoscopia tradicional. Sendo mais fácil, é mais bem feita e melhor será a recuperação. O que nós sabemos é que esta abordagem extraperitoneal, comparativamente à intraperitoneal, por não entrar em contacto com a parte visceral, tem uma recuperação pós-operatória mais rápida e com menos necessidade de analgesia. Com a abordagem extraperitoneal pode fazer-se o tratamento cirúrgico do cancro da próstata praticamente em ambulatório, ou seja, o doente é operado e no dia seguinte regressa a sua casa.

NF | Que quadros clínicos justificam esta opção cirúrgica?

EL | O quadro clínico é o tratamento cirúrgico do cancro da próstata. Pelo facto de ser o cancro mais frequente do homem e o segundo em mortalidade, esta é uma das cirurgias mais realizadas. Além disso, também fazemos o tratamento cirúrgico da hiperplasia benigna de próstata, representando situações não oncológicas mas que causam obstrução e dão dificuldade em urinar.

NF | Sobre a masterclass, no período da manhã os formandos assistiram a uma cirurgia ao vivo, num paciente real. Qual a importância desta abordagem na consolidação de conhecimentos?

EL | Não há nada como assistir a uma cirurgia ao vivo. Os formandos podem ter a perceção das dificuldades, podem questionar o cirurgião. Além de que, como esta cirurgia é feita em consola e fora do bloco operatório, o cirurgião pode estar à vontade com os formandos. Eles podem assistir e trocar impressões.

NF | A segunda parte do programa contempla o treino baseado em simulação. Foi utilizado algum equipamento diferenciador nesta componente prática?

EL | Temos um simulador na consola robótica que nos permite fazer simulação cirúrgica. É uma grande aposta da CUF e da CUF Academic Center. É o treino mais próximo da realidade possível.

NF | Durante a formação foram abordadas questões como a preparação do bloco operatório e do paciente para a cirurgia. Que impacto tem todo este trabalho no sucesso do procedimento?

EL | Na cirurgia robótica é muito importante o posicionamento do doente. No Hospital CUF Tejo temos uma mesa cirúrgica compatível com o robô, mas muitas vezes isso não acontece e pode ser fonte de complicações gravíssimas. É muito importante toda a envolvência, todo o staff, desde circulantes, anestesistas, enfermeiros. A cirurgia robótica valoriza o trabalho multidisciplinar.

Partilhar

Publicações