News Farma (NF) | Qual é o panorama atual de cancro do cólon e do reto em Portugal?
Dr. Alexandre Ferreira (AF) | Em Portugal, vive-se atualmente um período crucial no que respeita ao diagnóstico e prognóstico do cancro de cólon e reto (CCR). Nunca este foi tão diagnosticado nem provocou a morte a tantos portugueses como no último ano. São 12 vidas por dia. Estes são dados dramáticos, principalmente se se tiver em conta que estes números poderiam ser evitados através do rastreio por colonoscopia.
NF | Que benefícios traz o diagnóstico precoce e o rastreio para o cancro do cólon e do reto?
AF | A identificação de um cancro num estadio precoce é fundamental para que se possa oferecer um tratamento de intenção curativa.
O rastreio, especialmente por colonoscopia, permite não só identificar lesões malignas precoces em doentes assintomáticos, mas também possibilita a identificação e resseção de lesões pré-malignas. Estes tumores podem ter a forma de pólipos ou lesões planas, sendo os percursores do cancro e evoluem ao longo de vários anos, o que oferece uma janela de oportunidade suficiente para permitir à colonoscopia ser eficaz neste contexto.
NF | Que mais-valias são apresentadas pelo sistema inovador de inteligência artificial?
AF | Infelizmente, a colonoscopia não tem uma eficácia de 100%, ou seja, não consegue detetar sempre todas as lesões e a taxa de deteção de lesões varia entre centros e entre endoscopistas.
A aplicação dos sistemas de inteligência artificial (IA) durante a colonoscopia permite aumentar a sua eficácia. O sistema funciona como um segundo observador especializado que ajuda o endoscopista a localizar lesões durante a colonoscopia e os estudos demonstram que a sua utilização pode aumentar a capacidade de deteção das lesões pré-malignas em cerca de 40%.
Além disso, será previsível que ajude a alcançar um limiar mínimo de deteção para todos os endoscopistas, contribuindo para reduzir a diferença entre “super-detetores” e baixos detetores, funcionando como garantia de qualidade na colonoscopia.
NF | De que forma é que a inovação tecnológica nas colonoscopias permite evitar o cancro do cólon e do reto?
AF | Sabemos que existe uma relação inversa entre a deteção de adenomas na colonoscopia e o risco futuro de CCR. Por isso, o aumento da deteção de lesões, com recurso a novas tecnologias, poderá contribuir para aquele que é nosso objetivo último: reduzir a mortalidade por CCR.
Ao longo das últimas três décadas houve um avanço tecnológico muito importante no campo da endoscopia digestiva. Os sistemas de luz e imagem dos endoscópios evoluíram significativamente e surgiram vários acessórios, que permitem observar mais e com melhor detalhe as estruturas do tubo digestivo. Concomitantemente, assistiu-se a um progresso ao nível da sedação e da preparação intestinal. Recentemente, foi introduzida uma das inovações com mais impacto na capacidade de detetar lesões pré-malignas: os sistemas de inteligência artificial.
NF | Em suma, quais são os benefícios da inteligência artificial na medicina?
AF | A introdução da IA na Medicina é muito promissora e apresenta vantagens em alguns campos a curto prazo. Do ponto de vista clínico, as aplicações imediatas estão a ocorrer sobretudo no campo da imagem. Especialidades que envolvam a análise de imagem como a radiologia, a endoscopia, a anatomia patológica ou a dermatologia já estão a utilizar estas tecnologias no seu armamentarium clínico a grande velocidade.
Para além destas aplicações, poderemos obter outras vantagens clínicas ao nível da predição de risco, diagnóstico, medicina personalizada e prognóstico. A IA pode ainda levar a ganhos na gestão, organização e otimização dos recursos no âmbito das instituições e sistemas de saúde.


