Abordar a satisfação no trabalho

26/11/13

"A satisfação no trabalho é tão importante na vida dos profissionais e das organizações como esquecida", afirmou em entrevista à News Farma André Biscaia, quando questionado sobre a decisão de escrever o livro "Futurar em Positivo – Satisfação no Trabalho". O autor é médico de família na USF Marginal do Agrupamento de Centros de Saúde de Cascais, onde coordena o Núcleo de Investigação e Qualidade.



Destinada aos cidadãos, aos profissionais, aos gestores das unidades de saúde e aos responsáveis pelas políticas da saúde, a obra pretende, de acordo com André Biscaia, "organizar informação e produzir conhecimento, mas também desenvolver uma abordagem útil da satisfação no trabalho".


Quais os objetivos do livro?

André Biscaia - O livro, baseado na minha tese de doutoramento "Satisfação no Trabalho dos Médicos de Família dos Centros de Saúde Portugueses" desenvolvida e defendida no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, tem como finalidade organizar informação e produzir conhecimento, mas também desenvolver uma abordagem útil da satisfação no trabalho.


Quais os destinatários desta obra?

AB - Pretende-se que seja útil para os cidadãos que usufruem dos serviços, para os profissionais que os prestam, para os gestores das unidades, para os responsáveis pelas políticas da saúde. A MSD – Merck Sharp & Dohme apoiou o projeto, para permitir que chegue mais longe e a mais pessoas, através da impressão de 3 mil exemplares em papel a distribuir gratuitamente e de um PDF que será disponibilizado mais tarde e também por ter possibilitado que beneficiasse de um design gráfico muito bem conseguido pela Albuquerque Designers.


Porque é que decidiu escrevê-lo?

AB - A satisfação no trabalho é tão importante na vida dos profissionais e das organizações como esquecida. É uma variável moderadora de muitas outras, como o desempenho e a assiduidade dos trabalhadores (com importância até na sua própria saúde), influencia os resultados das organizações e a sua capacidade para reter trabalhadores, assim como a satisfação dos utilizadores dos serviços. Um teórico do comportamento organizacional diz até que se tivesse que escolher apenas uma variável para caracterizar um trabalhador, essa seria a satisfação no trabalho.


Mas, como disse, está esquecida. Por exemplo, a Lei de Bases da Saúde preconiza que o Serviço Nacional de Saúde está em permanente avaliação, sendo um dos parâmetros a satisfação no trabalho mas nunca existiu uma recolha sistemática desta informação. O mesmo se passa em largos sectores da sociedade portuguesa. Este livro é um passo para ajudar na mudança desta situação.


O que é que o livro propõe?

AB - Procurou-se ter uma atitude renovada na análise das questões, mas também na procura de soluções através de uma visão salutogénica. Tentou-se o entendimento holístico da satisfação no trabalho, discutindo como lidar com ela, quais os recursos para a potenciar, evidenciando os fatores associados aos melhores resultados e provando porque é uma área que merece o empenho de todos, já que dar esperança, futurar em positivo deve ser também um objetivo da ciência.




Qual deve ser a estratégia dos médicos de família para obterem bons níveis de satisfação no trabalho?

AB - Sem querer subverter as regras da generalização dos resultados, no livro tentou-se avançar para um entendimento e uma discussão da satisfação no trabalho que extravasasse o âmbito dos médicos de família e pudesse interessar a outras profissões, ao sector público e ao privado, a todos. Este é um objetivo que se atinge não só com a vontade dos profissionais para este desafio, mas com indispensáveis mudanças organizacionais. As organizações têm de conseguir desenvolver uma abordagem integrada da satisfação no trabalho que seja sensível ao seu contexto de trabalho, de aplicação viável e capaz de disponibilizar resultados úteis para os vários níveis de decisão – individual, organizacional e sistémico.


Os pontos mais salientes que decorreram da discussão abrangente que se tentou fazer no livro é que é importante desenvolver o trabalho em equipa / transdisciplinar nas organizações. Emergiu, também, forte que é importante que a auto-organização e a criatividade possam florescer (sendo por aqui que se poderá chegar à eficiência e o caminho pelo qual as organizações podem criar o seu próprio futuro). É importante, ainda, que exista uma gestão participada em que os líderes atuam como arquitetos sociais que criam as condições para que as coisas aconteçam e que a coesão na organização seja alcançada pela partilha de valores e objetivos decorrente de uma contratualização interna e externa efetiva, capaz de gerar valor para todos.


No que aos cuidados de saúde primários diz respeito os vários estudos da tese apontam claramente para o facto de que a implementação plena da Reforma de 2005 dos Cuidados de Saúde Primários que levou à constituição das USF - Unidades de Saúde Familiar é considerada uma via direta para trazer mais satisfação no trabalho e tudo o que esta implica.

 

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