Cada vez que um vírus se multiplica no interior de uma célula infetada, algumas letras do seu código genético podem ser erroneamente substituídas, dando origem a mutações. Algumas alteram caraterísticas importantes do vírus, como a sua transmissibilidade e severidade, podendo dar origem a estirpes mais bem-sucedidas.
No estudo, publicado na revista Evolution, Medicine, and Public Health, os investigadores infetaram células isoladas de rins de macacos com duas estirpes do SARS-CoV-2: uma com a versão original da proteína spike e outra com uma versão mutada que é prevalente a nível mundial. Depois de deixarem o vírus multiplicar-se, sequenciaram-no e procuraram por novas alterações e por qualquer evidência de evolução.
A equipa confirmou que o SARS-CoV-2 tem uma capacidade notável para se adaptar a novos ambientes, particularmente através da evolução da proteína spike. O gene que codifica esta proteína acumulou cinco vezes mais alterações que outras regiões, um resultado da seleção de mutações benéficas. Genes que codificam componentes da nucleocápside, membrana e envelope do vírus também mostraram sinais de adaptação. Várias das mutações identificadas foram já observadas em populações naturais do vírus, particularmente nas variantes beta, gama e ómicron.
Apesar de relevante, “a evolução experimental do vírus constitui um desafio adicional para os investigadores. Isto porque a seleção de variantes bem-sucedidas pode modificar a forma como as mutações se acumulam”, explica o Dr. Massimo Amicone, investigador do IGC e coautor do estudo.
Tendo isto em consideração, os investigadores obtiveram uma estimativa mais realística: a cada infeção, a probabilidade de qualquer letra do código genético do SARS-CoV-2 ser erroneamente substituída é de 1,3 em um milhão, menor que no vírus da gripe. “Dado que o código genético do SARS-CoV-2 é composto por aproximadamente 30.000 letras, isto significa que cada vez que o vírus é copiado, um em dez terá uma nova mutação”, explica Isabel Gordo, investigadora principal do IGC e coautora do estudo. Os autores concluíram ainda que o erro mais comum foi a substituição da letra C por um T, em ambas as estirpes usadas para infetar as células.
Além de partilharem muitas das novas alterações, as taxas de mutação das estirpes foram também semelhantes, o que sugere que a sua diferença inicial não influenciou o percurso mutacional. Apesar das semelhanças, a estirpe que transportava a forma mutada da proteína spike acumulou menos mutações benéficas que a original, o que corrobora a hipótese de que as estirpes mais bem-sucedidas se adaptam mais lentamente.


