O âmbito da investigação surge no sentido dos danos provocados no tecido cerebral após um acidente vascular cerebral (AVC) em que os neurónios perdidos nunca serão substituídos. Porém o cérebro tem a capacidade de produzir outros novos em que a ativação plena de regeneração acontece numa pequena parcela das células estaminais.
“Descobrimos como as células estaminais neurais detetam os danos e são recrutadas para reparar o tecido. Estes resultados poderão constituir um primeiro passo no desenvolvimento de fármacos que promovam a formação de novos neurónios na sequência de uma lesão cerebral,” diz a coautora e líder do estudo, Prof.ª Doutora Christa Rhiner.
Para perceber como funciona a regeneração neural, a equipa de Rhiner recorreu aos modelos animais da mosca e do ratinho. “Tal como o nosso, o cérebro destes animais também contém células estaminais neurais”, explica a cientista. “Além disso, muitos sinais químicos (moléculas) e formas de comunicação intercelular são comuns aos humanos, às moscas e aos ratinhos. Portanto, é provável que o que aprendermos com estes modelos animais seja relevante para perceber a fisiologia humana.”
A Dr.ª Anabel Simões, estudante de doutoramento no laboratório, começou por determinar quais as moléculas que estão presentes exclusivamente na área cerebral danificada. No meio de dúzias delas, uma em particular chamou a sua atenção. “Foi a Swim – uma proteína de transporte que literalmente ‘nada’ pelo tecido. Ajuda moléculas que normalmente agem a nível local a espalhar-se pelo tecido. E após uma meticulosa investigação, verificámos que a Swim é crucial para desencadear uma resposta regenerativa aos danos cerebrais”, explica. Segundo a especialista, logicamente o próximo passo era identificar a molécula transportada por Swim. Um conjunto adicional de experiências revelou a resposta: tratava-se do Wg/Wnt, um conhecido activador das células estaminais neurais nas moscas e nos mamíferos.
“Encontrámos o Wg nos neurónios da área danificada, o que era fascinante”, diz, “porque significava que os próprios neurónios detectam o ‘sofrimento’ do tecido e respondem tentando enviar um sinal que acorde as células estaminais neurais dormentes.” Nesse momento, faltava apenas encontrar a última peça do puzzle: quem estava a produzir a Swim?
A equipa descobriu que, quando os níveis de oxigénio diminuem na área cerebral que sofreu a lesão, um certo tipo de células gliais entra em acção. Estas células produzem a Swim e libertam-na no espaço extracelular. A seguir, o transportador encapsula o Wg e leva-o até à célula estaminal mais próxima, induzindo a sua ativação. “Um dos aspectos mais notáveis deste mecanismo é que é colaborativo”, explica. “Na área afetada, os neurónios e a glia trabalham em conjunto para promover a reparação do tecido.”
Os resultados da equipa, publicados na revista Developmental Cell, revelam um mecanismo cooperativo inédito que permite que os neurónios e a glia “juntem forças” para promover a regeneração neural.
“Agora que já sabemos quais são os intervenientes-chave e como comunicam entre si, temos uma oportunidade para tentar estimular a regeneração neural. Primeiro, precisamos de verificar que um mecanismo semelhante também existe no ser humano. Depois, poderemos começar a pensar na transposição destes resultados para terapias”, refere a Prof.ª Doutora Christa Rhiner.
“Estes resultados também suscitam, por sua vez, muitas outras perguntas, que planeamos investigar a seguir. Por exemplo, como podemos ajudar os novos neurónios a sobreviver no tecido à medida que este sara? Esta é uma viagem fascinante, e estamos ansiosos por ver o que vamos encontrar a seguir”, conclui.


