Os parasitas Plasmodium antes de infetarem os glóbulos vermelhos e causarem malária precisam de infetar os hepatócitos do fígado. Durante esta fase obrigatória do ciclo de vida, cada parasita divide-se em milhares de novos parasitas sem causar quaisquer sintomas clínicos. Isto levou a que se acreditasse que esta fase da infeção era "invisível" às defesas do hospedeiro.
Contudo, agora, investigadores do laboratório dirigido por Maria M. Mota (na foto) no IMM descobriram que o hospedeiro é capaz de detetar os poucos parasitas que chegam ao fígado além de tentar combatê-los ativamente. De forma inesperada, o mecanismo de deteção utilizado pelo hospedeiro nesta infeção é o mesmo que deteta certos tipos de vírus que são consideravelmente diferentes dos parasitas.
"Estou muito contente por o nosso trabalho conduzir a uma descoberta inesperada que acreditamos poder ajudar a desenvolver novos tratamentos e vacinas anti-maláricas mais eficientes no futuro", refere em comunicado Peter Liehl, investigador de pós-doutoramento Maria Mota Lab no IMM e primeiro autor do estudo.
A malária, que ainda causa mais de 600 mil mortes por ano, foi atribuída por Charles Laveran à infeção dos glóbulos vermelhos pelos parasitas Plasmodium, há mais de 100 anos. Alguns anos depois, Sir Ronald Ross mostrou que estes parasitas são transmitidos pelos mosquitos Anopheles.
Apesar destas descobertas fantásticas, as quais deram direito à atribuição de um prémio Nobel partilhado entre Laveran e Ross, o ciclo de vida nos humanos continuou largamente inexplicado. Ninguém sabia onde os parasitas residiam nos dez primeiros dias após a mordida de um mosquito infecioso, visto não se manifestarem no sangue. Esta questão foi resolvida apenas em 1947 quando Henry Shortt e Cyril Garnham mostraram que a fase de divisão no fígado precede a propagação dos parasitas no sangue.
A caraterística assintomática da infeção por Plasmodium no fígado levou a que se generalizasse a ideia (entre os investigadores) de que os poucos parasitas – que chegam ao fígado depois da picada de um mosquito – são capazes de infetar e dividir-se dentro dos hepatócitos sem serem detetados ou atacados pelo sistema imunitário do hospedeiro.
O trabalho dos investigadores no IMM mostra que, de facto, os parasitas Plasmodium são detetados durante a infeção dos hepatócitos. Curiosamente, o mecanismo que o hospedeiro utiliza para detetar o Plasmodium tinha sido anteriormente descrito apenas no contexto de infeções virais. De sublinhar que este mecanismo conduz a uma resposta imunitária capaz de eliminar uma proporção importante dos parasitas que infetam o fígado.
Um trabalho desenvolvido por investigadores do Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa, que vai agora ser publicado na Nature Medicine, promete revolucionar o conhecimento científico sobre a malária. A descoberta terá importantes implicações na forma como certas infeções virais podem afetar a propagação da malária e, sobretudo, no modo como as estratégias de intervenção devem ser desenhadas para eliminar eficazmente o parasita.

