VIH em Portugal: “Acabar com este problema está nas mãos de cada um de nós”

09/12/22
VIH em Portugal: “Acabar com este problema está nas mãos de cada um de nós”

Os números não são conclusivos, mas permitem perspetivar a ideia principal de que o decréscimo de novos casos de infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) em Portugal se mantém desde o início deste século. Foram 1803 os novos casos diagnosticados entre 2020 e 2021, indica o relatório “Infeção por VIH em Portugal em 2022”, elaborado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e a Direção-Geral da Saúde (DGS). A News Farma assistiu à apresentação do documento e conversou com três especialistas que analisaram os dados e as atividades desenvolvidas constadas no relatório.

A análise nacional referente ao biénio 2020 e 2021 dos novos casos por VIH é explicado por não terem sido recolhidos e analisados os dados de 2020 e publicado o relatório no respetivo ano, fruto das restrições desencadeadas pela pandemia da COVID-19. E a pandemia teve, deste modo, influência no decréscimo do número de casos por VIH patentes em 2020, considerando as limitações no acesso aos cuidados de saúde. Já no ano seguinte, houve um ligeiro aumento, mais 63 novos casos (933 no total) de infeção.

Este decréscimo é, portanto, tido como um aspeto positivo, no parecer da farmacêutica e responsável no Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) pelo Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Imunodeficiência Humana e Vírus das hepatites B e C, Dr.ª Helena Cortes Martins. Na sua opinião, um dos aspetos negativos a considerar é referente à constatação de uma percentagem bastante elevada de diagnósticos tardios – panorama “equivalente” de outros países europeus – especificando uma franja da população como os homens heterossexuais, correspondendo a “70 % dos diagnósticos tardios”, daí ser importante agir precocemente.

O diagnóstico - a par da prevenção, rastreio e referenciação, apoio à sociedade civil, literacia e ações públicas, estigma e discriminação e a participação internacional – é um dos pilares abordados e analisados no relatório. Para comentar este plano de atividades desenvolvidas inseridas no contexto das metas definidas pela ONUSIDA até 2030, a Dr.ª Joana Bettencourt, membro dos Programas Nacionais Infeção VIH/SIDA e Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde (DGS), começa por destacar a profilaxia pré-exposição (PrEP) enquanto “estratégia muito importante”.

Outro aspeto merecedor de destaque pela especialista, diz respeito aos rastreios, considerando ser “efetivamente uma porta de entrada para os cuidados de saúde” a fim de se conhecer o estatuto serológico em situações de risco por meio da realização de testes. Caso se esteja perante um caso positivo, um autoteste pode corresponder a uma ligação “célere e precoce aos cuidados de saúde”.

Tratando-se de uma doença crónica e com mecanismos preventivos e curativos disponíveis em Portugal, a especialista recorda que os tratamentos permitem que o doente tenha uma “significativa” qualidade de vida e longevidade quando comparado com as pessoas que não vivem com a infeção.

Sobre a PrEP – estratégia implementada em Portugal desde 2018 – afirma que “carece naturalmente de um incremento e de um maior investimento”, expondo que para o Orçamento de Estado de 2023 está em curso o alargamento da PrEP para outros contextos, concretamente Cuidados de Saúde Primários e de organizações de base comunitária e que vão permitir “uma maior celeridade no acesso” a este tipo de procedimento preventivo.

Como desfecho de análise a este relatório, conversou-se com o presidente do European AIDS Treatment Group, Dr. Ricardo Fernandes. O especialista anuncia que, por motivos de atraso de notificação em Portugal, estes dados podem vir a alterar-se em anos posteriores, apesar de na globalidade se verificar o decréscimo quanto ao número de infeções por VIH, não deixando de ser, todavia, “preocupante” esta realidade vivida em Portugal.

Relativamente ao estigma que possa surgir perante pessoas infetadas por VIH, é uma situação que ainda subsiste quer pelos próprios infetados como por aqueles que não padecem da doença, provocado pela iliteracia em saúde, algo que Portugal “precisa de trabalhar muito”, partilha a Dr.ª Helena Cortes Martins.

“Acabar com o VIH como um problema de Saúde Pública está nas mãos de cada um de nós”, relembra o Dr. Ricardo Fernandes.

O relatório referente à situação da infeção por VIH e a síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA) em Portugal foi divulgado no passado dia 29 de novembro, no Auditório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA). O documento foi elaborado pela Unidade de Referência e Vigilância Epidemiológica do Departamento de Doenças Infeciosas do INSA, em cooperação com o Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e Infeção pelo VIH da DGS.

Na apresentação estiveram presentes figuras ilustres da Saúde como a diretora-geral da Saúde, Dr.ª Graça Freitas, a Secretária de Estado da Promoção da Saúde, Dr.ª Margarida Tavares, o Dr. Fernando de Almeida, Presidente do Conselho Diretivo do INSA e o diretor do Serviço de Doenças Infecciosas e Medicina Tropical do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental (CHLO), Dr. Kamal Mansinho.

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