Estudo mostra resultados promissores do spray nasal de escetamina para a depressão resistente a tratamento

06/10/23
Estudo mostra resultados promissores do spray nasal de escetamina para a  depressão resistente a tratamento

As principais conclusões do estudo ESCAPE-TRD, que compara o escetamina-SN e a quetiapina de libertação prolongada (LP), ambas administradas em combinação com um antidepressivo convencional, foram publicadas pelo New England Journal of Medicine e mostram que o spray nasal pode representar uma nova esperança para a depressão resistente a tratamento (DRT). A Janssen foi responsável pela concepção e coordenação do estudo.

Escetamina: a procura de tratamento para a DRT 

A farmacêutica Janssen desenvolveu um spray nasal (SN) de escetamina, uma formulação que  demonstrou eficácia superior em vários ensaios clínicos, comparativamente com placebos. Também  obteve aprovações da FDA, nos EUA, e da EMA, na Europa. Mas haveria mesmo a necessidade de  outro medicamento, no já sobrelotado mercado de antidepressivos, e de um novo estudo sobre a escetamina-SN? 

Como afirma o Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia, diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da  Fundação Champalimaud e coordenador nacional do estudo em Portugal: “Embora existam muitos tratamentos disponíveis para a depressão, há  uma escassez de opções de medicamentos adaptados para a DRT. Além disso, para orientar os  médicos e os doentes na sua tomada de decisões, e para serem adotadas pelas companhias de  seguros de saúde e pelos governos, os fabricantes de medicamentos precisam de demonstrar uma  vantagem inequívoca sobre as modalidades de tratamento existentes, sublinhando assim a  relevância deste estudo”.

 

Frente a frente: Escetamina versus Quetiapina 

O estudo comparou a escetamina-SN com a quetiapina-LP oral, um antipsicótico atípico  originalmente autorizado para o tratamento de doenças como a esquizofrenia, mas cada vez mais  utilizado, e com a aprovação de agências reguladoras, como tratamento adjuvante para episódios  de depressão de difícil tratamento. O Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia avança: “A quetiapina é atualmente um dos poucos medicamentos alternativos complementares, aprovados para doentes com quadro clínico depressivo major e resposta inadequada ao tratamento antidepressivo contínuo”. 

Desenhado para replicar as condições do mundo real, o estudo foi aberto, o que significa que tanto  os profissionais de saúde quanto os doentes estavam cientes dos medicamentos em uso. Além  disso, dados os potenciais efeitos dissociativos agudos associados à utilização da escetamina-SN,  uma abordagem cega era impraticável. É importante realçar, no entanto, que as avaliações de  eficácia foram realizadas, no local, por avaliadores independentes que desconheciam as distribuições dos grupos de ensaio. O estudo internacional multicêntrico examinou mais de 800  doentes, tendo um número superior a 600 preenchido os rigorosos critérios de elegibilidade para DRT que foram posteriormente incluídos no estudo. 

Os participantes do estudo foram divididos em dois grupos: um grupo auto administrou a quetiapina LP em casa, enquanto o outro recebeu a escetamina-SN em ambiente hospitalar supervisionado. Simultaneamente, ambos os grupos continuaram com o seu mais recente plano de tratamento  antidepressivo, com medicamentos antidepressivos convencionais: ou um inibidor seletivo da  recaptação de serotonina (ISRS, por exemplo fluoxetina) ou um inibidor seletivo da recaptação de  serotonina e norepinefrina (SNRI, por exemplo venlafaxina). “O estudo durou 32 semanas, um  período superior ao dos ensaios típicos”, afirma o Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia. “Isso permitiu-nos avaliar os  resultados do tratamento a curto e longo prazo. Durante todo esse tempo, monitorizámos de perto  as respostas dos participantes, os efeitos colaterais e a eficácia geral dos medicamentos”. 

O Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia desenvolve: “O nosso objetivo era verificar se os doentes que tomavam a escetamina SN tinham maior probabilidade de alcançar a remissão – correspondendo essencialmente à  eliminação dos sintomas – às oito semanas, em comparação com aqueles que tomavam a  quetiapina-LP. Entre aqueles que alcançaram esta remissão aos dois meses, procurámos determinar  os efeitos da continuação do tratamento na prevenção de uma recaída, em ambos os grupos, até à  conclusão do ensaio às 32 semanas. 

 

O que as descobertas mostram 

Após as oito semanas, ambos os grupos ultrapassaram a taxa de remissão de 10- 15 % observada no estudo do NIMH, conforme publicado no New England Journal of Medicine.  Notavelmente, 27,1 % dos doentes que tomaram a escetamina-SN alcançaram a remissão, em  comparação com 17,6 % do grupo que tomou a quetiapina XR, com ambos a continuar a sua  medicação com antidepressivos convencionais (SSRI ou SNRI). Os dados de longo prazo foram  ainda mais reveladores. A proporção de doentes que alcançaram a remissão na semana oito e a  mantiveram sem recaída até a semana 32 foi de 21,7 % para o grupo da escetamina-SN e de 14,1 %  para o grupo da quetiapina-LP. 

Mais notável para os autores foi o aumento acentuado nas taxas de remissão após o período inicial  das oito semanas. Como observou o Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia: “Se este ensaio tivesse sido concluído às oito  semanas, os resultados seriam bastante interessantes, mas não incríveis. No entanto, os dados às  32 semanas contam uma história diferente”. Nesse momento, quase metade dos doentes que  seguiram com o tratamento com a escetamina-SN – incluindo aqueles que não estavam em remissão  na semana oito – alcançaram a remissão. Em contraste, apenas um terço daqueles que continuaram  com a quetiapina-LP atingiram este estado. 

Além da eficácia terapêutica, os parâmetros de segurança foram avaliados criteriosamente. Ambas  as opções de tratamento registaram taxas muito baixas de eventos adversos graves, como  mortalidade ou ideação suicida. Porém, ao examinar os efeitos colaterais menos graves, o grupo de  doentes que administrou a escetamina-SN apresentou uma maior frequência de manifestações  quando comparada com o grupo da quetiapina-LP. “Isso era algo já antecipado, dadas as 

propriedades dissociativas da escetamina”, diz o Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia. “Curiosamente, a taxa de doentes que  pararam o tratamento devido aos efeitos colaterais foi na verdade menor para a escetamina-SN do  que para a quetiapina-LP, o que sugere que, embora, no papel, a escetamina-SN possa ter mais  efeitos adversos, aqueles causados pela quetiapina foram menos toleráveis”. 

 

Para onde vamos: implicações clínicas e políticas 

As descobertas são promissoras, especialmente para aqueles que lutam contra a DRT. “O  verdadeiro desafio agora passa da investigação para a política. O impacto da escetamina-SN só  pode ser concretizado se os doentes tiverem acesso imediato à mesma”. Atualmente, em Portugal  e muitos outros países, há acesso limitado a tratamentos para a DRT aprovados e baseados em  evidências, incluindo a escetamina, a terapia eletroconvulsiva ou a estimulação magnética  transcraniana (EMT). “São necessárias pesquisas contínuas e um persistente trabalho de defesa  das mesmas para assegurar que os tratamentos chegam aos doentes que deles precisam”. 

Olhando para o que se segue, o Prof. Doutor Albino Oliveira-Maia mostra-se otimista. “Os nossos esforços de investigação  futuros visam identificar marcadores preditivos para a capacidade de resposta ao tratamento. Além  disso, queremos investigar formas de melhorar e manter as taxas de remissão, incluindo o papel potencial da psicoterapia. A EMT também está no topo da nossa lista para exploração futura.  Contudo, o progresso científico deve ser acompanhado de medidas políticas pró-ativas e de ações  governamentais concretas. Em última análise, o nosso objetivo é construir um cenário de cuidados  de saúde onde os doentes não sejam relegados a tratamentos de qualidade inferior, e não baseados  em evidências, devido à falta de acesso a opções mais eficazes”. 

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