Liam O’Mahony, professor de imunologia na University College Cork e um dos autores principais do estudo, destaca que “embora todos nós comecemos a vida estéreis, as comunidades de micróbios benéficos que habitam o nosso intestino desenvolvem-se ao longo dos primeiros anos de vida”.
Os investigadores analisaram amostras de fezes de mais de um grupo de 300 bebés nascidos nos primeiros três meses de pandemia. Além disso, estudaram amostras de fezes de outro grupo de bebés nascidos antes disso, comparando as amostras entre os dois: em ambos os grupos, foram recolhidas amostras aos seis, 12 e 24 meses e realizados testes de alergias aos 12 e 24 meses.
A equipa realizou ainda questionários online para obter informações acerca da saúde geral e alimentação, por exemplo, de cada bebé, tendo concluído, depois de análise de todos os dados, que existiam diferenças significativas no desenvolvimento das suas microbiotas.
Publicado na revista Allergy, o estudo também concluiu que apenas cerca de 5 % dos bebés que nasceram durante o confinamento tinham desenvolvido uma alergia alimentar durante o primeiro ano de idade; já no grupo dos bebés “pré-pandémicos”, esse valor foi de com 22,8 %.
“Este estudo oferece uma nova perspetiva sobre o impacto do isolamento social no início da vida na microbiota intestinal”, afirma Jonathan Hourihane, pediatra e outro dos autores principais do estudo, acrescentando que “as taxas mais baixas de alergias entre os recém-nascidos durante o confinamento podem realçar o impacto do estilo de vida e dos fatores ambientais, como o uso frequente de antibióticos, no aumento das doenças alérgicas”.
A equipa descobriu que 17 % dos bebés nascidos durante a pandemia tomaram antibiótico até ao primeiro ano, mas no outro grupo a percentagem era de cerca de 80 %. Isto pode ter-se devido ao facto de o primeiro grupo de bebés não ter sido tão exposto a outros humanos; por outro lado, estes bebés conseguiram “acumular” níveis mais elevados de bactérias benéficas, tais como as bifidobactérias, que desempenham papéis importantes na manutenção do equilíbrio microbiano no trato gastrointestinal, sendo umas das bactérias mais abundantes em bebés que estão a ser amamentados.
A equipa pretende voltar a examinar as crianças quando estas tiverem cinco anos, com o objetivo de analisar os possíveis impactos a longo prazo das mudanças registadas nas microbiotas intestinais.


