No âmbito da efeméride, a associação MiGRA Portugal e a Sociedade Portuguesa de Cefaleias vêm alertar para a elevada escassez de especialistas, que resulta numa oferta limitada de serviços por parte do SNS, face às necessidades dos doentes: apenas 13 % dos doentes que necessitam têm acesso às consultas de especialidade, sendo necessários vários anos para que tenham acesso à consulta de cefaleias. Em média, apenas cerca de 300 doentes são tratados com medicação específica, por ano, em Portugal.
“Grande parte dos doentes vê-se obrigada a recorrer a consultas privadas, com elevado esforço financeiro, além do custo das terapêuticas específicas, que chegam a representar mais de metade do salário mínimo em Portugal. Terapêuticas estas que são disponibilizadas nos hospitais públicos com comparticipação a 100 %, aos poucos doentes que conseguem ter acesso à consulta”, sublinha Raquel Gil-Gouveia, neurologista especialista em cefaleias e membro da Sociedade Portuguesa de Cefaleias. “Existe, assim, uma discriminação no acesso ao tratamento, (dado que as terapêuticas mais eficazes e com menos efeitos secundários não estão a chegar aos doentes), bem como é manifesta a incapacidade do SNS em disponibilizar consultas em número suficiente, com tempos de espera que chegam a ser superiores a um ano”, acrescenta a neurologista.
Já de acordo com a MiGRA Portugal, “há em Portugal mais casos de enxaqueca do que aqueles que estão identificados e diagnosticados. Muitas pessoas sofrem em silêncio pelo desconhecimento e desvalorização desta doença responsável pela maior perda de anos de vida por incapacidade nas mulheres com menos de 50 anos. Existe uma dificuldade dos próprios doentes, dos profissionais de saúde e da sociedade no geral em aceitar a enxaqueca como uma doença neurológica. O estigma de que é apenas uma dor de cabeça, de que é uma desculpa ou mesmo a culpabilização do próprio doente, levam a que esta doença não seja adequadamente diagnosticada, acompanhada e tratada, impactando a esfera pessoal e laboral dos doentes, e até mesmo a produtividade e economia do país”.
Um inquérito realizado pela MiGRA Portugal revelou estatísticas alarmantes: 60 % dos doentes em tratamento para a enxaqueca expressam insatisfação com o seu tratamento, e entre 55 a 70 % permanecem alheios às opções de tratamento inovadoras. Adicionalmente, cerca de 40 % não têm acompanhamento médico e 70 % dos que são acompanhados por um neurologista tiveram de recorrer ao privado.
“Perante estes números, verificamos a urgência em melhorar os cuidados prestados nas cefaleias, nomeadamente a enxaqueca”, sublinha Madalena Plácido, presidente da direção da MiGRA Portugal, associação que, em conjunto com a Sociedade Portuguesa de Cefaleias, entende como prioritárias a reorganização do sistema de cuidados de saúde e a mudança nas políticas de Saúde Pública, que tenha em consideração o contexto destas patologias.
Apesar dos esforços da MiGRA Portugal e da Sociedade Portuguesa de Cefaleias em produzir e divulgar dados nacionais úteis às autoridades de saúde, ainda não se vislumbra um interesse real em ajudar essas pessoas. Assim, e com vista a uma resposta imediata para as necessidades destes doentes, foi elaborado um documento com um conjunto de “Recomendações para Melhorar os Cuidados de Saúde da Enxaqueca e Cefaleias”, no âmbito da criação de uma estratégia nacional, a ser formalmente apresentado este mês à Tutela e aos principais decisores do setor.


