De acordo com o grupo de investigadores, “a metformina, um antidiabético oral usado há muitos anos na diabetes tipo 2 para controlar os níveis de açúcar no sangue (glicemia), é eficaz a tratar a infertilidade”. Para além disso, sugere-se que este medicamento possa ter outros efeitos benéficos na doença, abrindo caminho para o seu reaproveitamento futuro.
A investigadora Delminda Neves destaca a relevância desta descoberta, sublinhando que os tratamentos mais eficazes para a endometriose atualmente têm de ser interrompidos antes da gravidez. Caso a metformina venha a ser recomendada para esta condição, poderá ser utilizada tanto na fase de preconceção como durante a gravidez, o que constitui um avanço significativo no tratamento da infertilidade associada à doença.
A infertilidade nas mulheres com endometriose deve-se, em parte, a alterações no endométrio, a camada que reveste o útero, dificultando a implantação do embrião. No entanto, a doença também envolve mecanismos sistémicos que afetam diversos órgãos e tecidos, incluindo o tecido adiposo.
Estudos anteriores realizados pela equipa de Delminda Neves demonstraram que o tecido adiposo visceral (localizado na região abdominal e pélvica) sofre alterações na sua estrutura e função em mulheres com endometriose. Estas alterações incluem um aumento da produção de moléculas pró-inflamatórias e um metabolismo acelerado, semelhante ao que ocorre em doenças como o cancro.
Os resultados foram obtidos através de uma análise molecular de tecidos de mulheres com endometriose, no âmbito de uma colaboração com a Unidade Local de Saúde de São João, e do trabalho de investigação desenvolvido por José Pedro Abobeleira no Mestrado Integrado em Medicina da FMUP.
"Havendo outros órgãos a influenciar a progressão da endometriose, poderão surgir fármacos que tenham como alvo não somente a regulação de hormonas como o estrogénio, como acontece atualmente, mas que atuem também no tecido adiposo. A metformina é, por isso, um forte candidato", explica Delminda Neves.
O próximo passo da investigação será avaliar se a metformina, além de controlar a endometriose, pode também prevenir a progressão da doença para tumores malignos, como o cancro do endométrio e o cancro do ovário.
Este estudo conta com a participação de investigadores da FMUP e do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, reforçando a colaboração entre instituições na busca de novas soluções terapêuticas para a endometriose e a infertilidade feminina.
Fonte: Lusa


