Sete em cada dez médicos portugueses subestimam o impacto ambiental dos inaladores pressurizados

31/03/25
Sete em cada dez médicos portugueses subestimam o impacto ambiental dos inaladores pressurizados

Nos últimos anos, a evidência sobre o impacto ambiental dos sistemas de saúde tornou-se incontornável. Atualmente, sabe-se que este setor contribui com 4,4% das emissões globais de gases com efeito de estufa (GEE), agravando a crise climática.

Em Portugal, essa percentagem é ainda mais elevada, atingindo os 4,8%. Entre os fatores que influenciam esta pegada ambiental, os inaladores pressurizados (pMDI), utilizados no tratamento da asma e da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), desempenham um papel relevante, mas pouco reconhecido pelos profissionais de saúde.

Um inquérito do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), realizado junto de 348 médicos, revelou que apenas 52,3% dos inquiridos têm conhecimento sobre a pegada ambiental destes dispositivos.

Além do desconhecimento generalizado, o estudo demonstrou que 15% dos profissionais de Pneumologia, Alergologia, Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna identificaram erradamente os inaladores de pó seco (DPI) como os mais poluentes, quando, na realidade, os inaladores pressurizados são os principais responsáveis pelo impacto ambiental. Outro dado preocupante é que mais de 70% dos médicos admitiram não considerar fatores ambientais ao prescrever inaladores, apesar de esta ser uma recomendação presente nas guidelines internacionais para o tratamento de doenças respiratórias.

“É urgente um maior envolvimento dos profissionais de saúde no combate às alterações climáticas e à degradação ambiental, como uma responsabilidade ética e profissional, na medida em que os fatores ambientais já são responsáveis por uma em cada quatro mortes a nível global. As pessoas com doença respiratória estão, precisamente, entre as que mais sofrem com a crise climática e a poluição ambiental, por isso é crítico que os profissionais de saúde tenham em consideração o perfil ecológico das tecnologias de saúde que prescrevem, sob pena de estarem a contribuir para o agravamento da condição clínica dos seus doentes, com o dano causado ao planeta e à natureza”, defende Luís Campos, Presidente do CPSA.

O inquérito também revela disparidades entre especialidades. A Medicina Geral e Familiar é a que apresenta menor conhecimento sobre a pegada ecológica dos inaladores, com apenas 40% dos inquiridos a referirem estar informados. Já na Pneumologia, mais de 60% dos médicos demonstraram estar sensibilizados para esta questão.

A análise por faixa etária indica que os profissionais mais jovens têm menor conhecimento sobre o tema (pouco mais de 40%), enquanto entre os 50 e os 65 anos, essa percentagem sobe para mais de 60%. Quanto à prescrição, Pneumologia e Alergologia registam preocupações ambientais semelhantes (cerca de 35%), enquanto a Medicina Interna é a especialidade menos atenta a esta questão (22%).

Segundo o Documento de Consenso “Recomendações para a redução do impacto ambiental dos inaladores em Portugal”, publicado na revista Acta Médica em setembro, os inaladores pressurizados representam 95% da pegada de carbono total da terapêutica inalatória no país, enquanto os inaladores de pó seco são responsáveis por apenas 5%.

O impacto ambiental destes dispositivos equivale a mais de 30 mil toneladas de CO2, o que exigiria a plantação anual de 1,3 milhões de árvores para compensar as emissões. Em termos comparativos, este impacto corresponde a 150 viagens transatlânticas entre Londres e Nova Iorque ou a 2.445 voltas à Terra num carro a diesel.

Face a estes dados, os especialistas propõem diversas medidas para mitigar o impacto ambiental dos inaladores, incluindo a preferência pela prescrição de inaladores de pó seco sempre que possível, a introdução de mecanismos de alerta nas plataformas de prescrição para informar sobre a pegada ecológica de cada dispositivo e a criação de estratégias para incentivar a devolução de inaladores usados nas farmácias.

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