Estudo aponta que um quarto dos doentes desconhecem prazos legais de acesso a cuidados de saúde no SNS

08/04/25
Estudo aponta que um quarto dos doentes desconhecem prazos legais de acesso a cuidados de saúde no SNS

Um estudo da Deco Proteste, divulgado no âmbito do Dia Mundial da Saúde, aponta que uma parte significativa dos utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) desconhece os prazos legais estabelecidos para o acesso à primeira consulta de especialidade ou à realização de exames. Cerca de 25% dos inquiridos admitiram não saber que existem Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG), sendo que apenas uma minoria consegue identificá-los com precisão.

A investigação, realizada em novembro de 2024, envolveu 942 utentes referenciados por médicos de cuidados de saúde primários nos dois anos anteriores, e procurou avaliar os tempos de espera efetivos para consultas de especialidade e exames complementares de diagnóstico e terapêutica.

De acordo com os resultados publicados na edição de abril da revista “Saúde”, da Deco Proteste, 42% dos utentes consideraram excessiva a demora na marcação de consultas de especialidade, enquanto 27% partilham a mesma opinião relativamente à realização de exames. A perceção de falhas no acesso foi acompanhada de consequências clínicas: 41% dos inquiridos relataram agravamento do seu estado de saúde durante o tempo de espera.

Mesmo no caso dos exames, maioritariamente realizados em entidades convencionadas com o SNS, 23% afirmaram que a sua condição de saúde se deteriorou enquanto aguardavam a realização dos mesmos. Para tentar contornar a espera, 11% dos inquiridos optaram por mudar de local de realização do exame.

Os dados apontam ainda que, segundo os relatos dos utentes, os tempos máximos legalmente previstos foram ultrapassados em 45% dos casos no acesso à primeira consulta hospitalar, e em 21% na realização de exames. Ainda assim, os tempos médios indicados no estudo mostram-se ligeiramente mais favoráveis do que os reportados pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS).

De acordo com a ERS, no primeiro semestre de 2024, mais de metade (52%) das primeiras consultas hospitalares foram realizadas fora dos prazos legais, representando um agravamento face ao período homólogo de 2023. No final de junho, havia cerca de 776 mil utentes a aguardar a primeira consulta, sendo que, para 55% desses casos, os TMRG já tinham sido ultrapassados.

Entre as especialidades com maiores tempos de espera identificam-se a Oftalmologia, Cardiologia, Dermatologia e Ortopedia. Em média, os participantes do inquérito esperaram 104 dias por uma consulta de especialidade, independentemente do nível de prioridade atribuído.

Para a Deco Proteste, a combinação entre desinformação e dificuldades de acesso está a gerar consequências graves para a saúde dos utentes e a promover o recurso ao setor privado, frequentemente com custos elevados e incomportáveis para muitas famílias.

A associação defende, por isso, a criação de um vale saúde, semelhante ao atual vale cirurgia, que permita garantir o cumprimento dos prazos legais para consultas, exames e tratamentos, sem qualquer encargo financeiro para o utente. Este mecanismo deverá incluir a indicação das entidades prestadoras com capacidade de resposta dentro do tempo clinicamente aceitável, bem como o alargamento e a publicitação da rede de convencionados.

Por fim, a Deco Proteste apela ao reforço da informação disponibilizada aos utentes do SNS, de forma a garantir que estes conhecem os seus direitos e possam exigir o seu cumprimento em tempo útil.

Fonte: Lusa

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