Inteligência artificial pode humanizar a prática médica

05/06/25
Inteligência artificial pode humanizar a prática médica

O professor de Bioética da Universidade do Porto, Rui Nunes, defendeu que a inteligência artificial (IA) terá um impacto profundo na medicina, com potencial para tornar os profissionais de saúde “mais humanos e mais bem preparados”.

A intervenção decorreu no âmbito da conferência “A Inteligência Artificial na Saúde e na Investigação”, integrada no Annual Meeting 2025 da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra. Durante a sua comunicação, o especialista sublinhou que, apesar dos benefícios que a IA pode trazer, a sua utilização deve ser cuidadosamente ponderada.

“Na saúde, a inteligência artificial deve transformar-nos em melhores profissionais, mas também tem o potencial oposto, tudo depende de nós”, alertou Rui Nunes.

Enquanto coordenador do “Livro Branco sobre Inteligência Artificial”, o académico afirmou ser “um otimista” quanto às potencialidades das novas tecnologias, prevendo uma “mudança radical de paradigma no modo como as sociedades se têm desenvolvido”.

Rui Nunes antecipa que, a muito curto prazo, a IA venha a tornar-se “superinteligente, ultrapassando a mente mais brilhante”, o que poderá levantar sérias questões sobre a capacidade humana de compreender os sistemas mais complexos. “Esta perspetiva de uma superinteligência artificial já denota características muito sobreponíveis àquelas que identificamos na pessoa humana, intencionalidade – a pessoalidade e intencionalidade, que é especificamente humana”, reforçou.

Na sua intervenção, o especialista advertiu ainda para a hipótese de a IA vir a desenvolver consciência, característica inerente ao ser humano, o que reforça a necessidade de uma utilização consciente e regulada desta ferramenta: “não se trata apenas de uma mera ferramenta, que deve ser muito bem utilizada”.

Em contexto de investigação, Rui Nunes prevê “uma revolução total”, alertando para o risco de limitação da criatividade humana. “Na investigação vai haver uma mudança radical e há problemas complexos nesta matéria”, afirmou, expressando o desejo de que a espécie humana continue a desenvolver-se por si e “não nesta fórmula híbrida de transumanismo”.

Já no domínio assistencial, o professor considerou que a transformação será “absoluta”, com destaque para o impacto da transcrição automática de consultas no Serviço Nacional de Saúde. “Os médicos não têm tempo para ver os doentes e o pouco que têm é para tarefas administrativas, sempre agarrados ao computador, pelo que não têm sequer tempo para olhar nos olhos do paciente”, referiu.

Com os sistemas de transcrição, Rui Nunes acredita que se abre caminho para uma mudança significativa na prática clínica: “Finalmente, ao fim de décadas, os médicos podem voltar a olhar para os doentes, que é a questão central na relação médico-doente”.

Fonte: Lusa

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