A Medicina de Precisão só será eficaz se for acessível a todos, de forma justa e integrada

07/07/25
A Medicina de Precisão só será eficaz se for acessível a todos, de forma justa e integrada

Durante a 3.ª edição do Innovation Talks, uma iniciativa da Plataforma Saúde em Diálogo e da AstraZeneca, que decorreu no passado dia 27 de junho na Ordem dos Farmacêuticos, em Lisboa, destaca-se a necessidade de uma estratégia clara para garantir o acesso à Medicina de Precisão a doentes oncológicos, com doenças raras ou crónicas. 

O foco das mais recentes Innovation Talks  é a Medicina de Precisão, destacando-se como uma mudança de paradigma no diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos doentes. 

Jaime Melancia, presidente da Plataforma Saúde em Diálogo, sublinha a importância desta abordagem centrada na individualização do cuidado. “Não falamos apenas de doentes, falamos de indivíduos, com características, histórias e necessidades únicas”.

É preciso ter uma estratégia para o acesso à Medicina de Precisão em Portugal para que quem sofre de doença oncológica, rara ou crónica possa ter um diagnóstico atempado e aceder ao tratamento mais indicado face às suas necessidades.

Rosário Trindade, da AstraZeneca, defende que “tudo deve ser feito com os doentes, para os doentes e a partir das suas necessidades”, apela assim ao compromisso das associações para garantir melhor acesso às inovações.

Em simultâneo, Hélder Mota-Filipe, bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, alerta para os custos das novas terapêuticas, reforçando a importância de conciliar sustentabilidade e acesso. 

Já Fátima Cardoso, presidente da Advanced Breast Cancer Global Alliance, oradora principal do evento, enfatiza o papel dos biomarcadores na medicina de precisão, citando o exemplo do teste Mammaprint, que evitou quimioterapia em 46% das mulheres com cancro da mama com alto risco de recidiva. Considera que ainda estamos longe do conceito de Medicina personalizada, sendo mais correto falar de Medicina de Precisão.

No entanto, alerta para falhas no diagnóstico em Portugal e defende uma maior partilha de dados clínicos para garantir continuidade e qualidade no tratamento.

A partilha de dados é também destacada por Elsa Mateus, da European Patients’ Academy on Therapeutic Innovation, que aponta a importância da literacia em saúde e da adesão à terapêutica. 

Contudo, destaca obstáculos como a não adesão à terapêutica devido a receios e falta de informação. Defende campanhas de sensibilização, uma abordagem multidisciplinar e mais literacia do doente para uma participação ativa nas decisões.

Rui Medeiros, do IPO Porto, reforça a necessidade de decisão política e combate às desigualdades no acesso ao diagnóstico precoce.

Para o investigador, “Portugal tem sido exemplo em políticas de rastreio e prevenção, mas existem desigualdades na distribuição dos recursos”, sendo essencial partilhar dados para melhorar os resultados.

Também presente no evento, Tamara Milagre, da Associação EVITA, destaca a falta de literacia genética, inclusive entre profissionais de saúde, e o papel fundamental do médico de família na deteção precoce de cancro hereditário. Propõe o uso de ferramentas simples como o questionário da plataforma EVITA.

Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, reconhece progressos em instituições como o IPO do Porto, mas alerta para o atraso do Serviço Nacional de Saúde face a outros países e a urgência de uma estratégia nacional para acesso equitativo a testes genéticos.

As Innovation Talks voltam, assim, a colocar no centro do debate as necessidades dos doentes, reforçando que o futuro passa não só por investimento em inovação tecnológica, mas igualmente importante em prevenção, melhor equidade de acesso, partilha de dados, investimento em literacia e maior envolvimento de todos os intervenientes do sistema de saúde.

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