No contexto epidemiológico, "a dermatite atópica é a patologia inflamatória cutânea mais frequente na infância, caracterizando-se por uma secura cutânea crónica e recorrente, muito pruriginosa", descreve a Dr.ª Elisa Pedro, vice-presidente da SPAIC.
De acordo com dados dos estudos ISAAC (International Studies of Asthma and Allergies in Childhood) a incidência varia entre 1 e 20%, consoante as regiões, sendo a prevalência em Portugal de 17%. "Cerca de metade das crianças afetadas iniciam as queixas antes dos 6 meses de idade; cerca de dois terços antes dos 12 meses de idade; e apenas 10-15% das crianças afetadas iniciam as queixas após os 5 anos de idade. Na maior parte dos casos esta doença tende a melhorar e até a desaparecer com a idade. A persistência do eczema é mais frequente nos casos de aparecimento mais tardio", acrescenta o Prof. Doutor Luís Delgado, presidente da SPAIC.
A dermatite de contacto é, de acordo com o Prof. Doutor Luís Miguel Borrego, uma patologia que, nas crianças, assume uma prevalência crescente, sobretudo nos países industrializados. Esta reação inflamatória da pele após exposição a determinadas substâncias alergénicas ou irritantes é causa, segundo o especialista do Hospital CUF Descobertas, de 15 a 75% de recurso a consultas de Dermatologia, por parte da população pediátrica. "Calcula-se que entre 15-30% das dermatites de contacto são de natureza alérgica e 70 a 80% são irritativas. Cerca de 90% dos eczemas de contacto ocupacionais são irritativos".
A urticária é também uma patologia cutânea frequente, caracterizando-se "pelo aparecimento de lesões (manchas e pápulas) eritematosas e puriginosas, acompanhadas ou não de angioedema. Tais lesões são recorrentes e podem ter uma duração superior a seis semanas", como explica a Dr.ª Ana Célia Costa, do Hospital de Santa Maria. Esta patologia afeta cerca de 1% da população em geral, com uma duração que pode ir até 20 anos em cerca de 20% destes doentes.
Segundo a Dr.ª Elisa Pedro, a evolução para a cronicidade parece ser observada em mais de 25% das formas agudas. "A maioria dos estudos mostra claramente que o sexo feminino é duas vezes mais afetado que o sexo masculino, não só pela urticária crónica mas pela urticária em geral. Todos os grupos etários podem desenvolver urticária crónica mas o seu pico de incidência situa-se entre os 20 e 40 anos", acrescenta.
Quanto à anafilaxia, outro tema que fará parte do programa da Reunião da Primavera, atinge uma prevalência de 1,6% nos EUA e, na Europa, cerca de 0,3% da população já sofreu um episódio desta natureza em algum momento da sua vida. "Em Portugal e desde 2012, é obrigatória a notificação dos episódios de anafilaxia (Norma 4/2012 DGS), operacionalizada através do Catálogo Português de Alergias e outras Reações Adversas (CPARA), organizado em colaboração com a SPAIC. Segundo o Prof. Doutor João Fonseca (CINTESIS, FMUP), numa análise dos primeiros 10 meses de registo "verificaram-se 6% de reações de anafilaxia, maioritariamente causadas por alergia medicamentosa (75%), na qual os antibióticos beta-lactâmicos foram os mais envolvidos (45%)".
Pela sua importância clínica e a necessidade de um melhor reconhecimento da doença, a anafilaxia foi o tema escolhido este ano para a semana da alergia pela WAO (World Allergy Organization) que decorre de 7 a 13 de Abril em todo o mundo e a que a SPAIC se associa.
Impacto na qualidade de vida
A patologia cutânea, independentemente da sua etiologia, tem um impacto negativo na qualidade de vida do doente, sobretudo na interação social, condicionando muitas vezes quadros de ansiedade, stresse, distúrbios do sono.
Segundo a Drª Ana Célia Costa, a urticária crónica, por exemplo, condiciona uma diminuição significativa da qualidade de vida dos doentes, com limitações na vida diária semelhantes à da doença coronária grave. "Em comparação com outras patologias dermatológicas crónicas e respiratórias alérgicas, doentes com urticária crónica têm um índice de qualidade de vida significativamente inferior, sobretudo no sono, nas atividades da vida diária, na produtividade escolar/laboral e na interação social, condicionando um elevado impacto socioeconómico, com consideráveis custos de saúde, diretos e indiretos", adianta a especialista.
Quanto à dermatite atópica, a Dr.ª Cristina Lopes, imunoalergologista do Hospital de Pedro Hispano, explica que, sendo uma patologia cutânea imuno-mediada, multifactorial, crónica e recidivante, "tem um significativo impacto emocional, na qualidade do sono e na qualidade de vida dos doentes e suas famílias".
Alergénios
De acordo com a Dr.ª Elisa Pedro, as alergias cutâneas estão frequentemente associadas a alimentos, a medicamentos e a picadas de insetos nomeadamente abelhas e vespas. "A sensibilização a alimentos e alergénios inalantes (ácaros e pólenes) nas crianças com dermatite atópica é muito frequente e parece ser um marcador de gravidade da doença cutânea. Esta sensibilização está associada a um eczema mais grave, com um maior risco de persistência para além dos 7 anos de idade e de desenvolvimento de doença respiratória alérgica", descreve. Por outro lado, "estima-se que cerca de 80% das crianças com eczema atópico e sensibilizadas ao ovo, desenvolvem asma e têm maior probabilidade de se sensibilizarem a alergénios inalantes (ácaros e pólenes) ".
Na dermatite de contacto, os alergénios mais frequentemente implicados são "os metais (níquel, cobalto e cromatos), fragrâncias, neomicina, aditivos da borracha e aditivos de coloração", apontam o Prof. Doutor Luís Miguel Borrego e a Dr.ª Helena Melo. Segundo os dois especialistas do Hospital CUF Descobertas, a sensibilização pode ocorrer pelo contacto diário com têxteis, sapatos, metais, e até mesmo brinquedos. "Deve igualmente equacionar-se a possibilidade de sensibilização a perfumes, fragrâncias, batons, e sombras para os olhos, que muitas vezes se encontram em brinquedos cosméticos", alertam.
No que respeita às causas de urticária, os alergénios mais frequentemente envolvidos são os alimentos e os medicamentos. "Os principais grupos de alimentos em que existe reatividade, incluem mariscos, peixes, leguminosas, sementes e frutos secos, cereais e frutos rosáceos", refere a Dr.ª Cristina Arêde, também do Hospital CUF Descobertas.
No entanto, "na maioria dos casos, não há uma causa conhecida para a urticária crónica", salienta a Dr.ª Ana Célia Costa. Nas crianças, por exemplo, "a origem mais frequente é a infeção viral, transitória, resolvendo sem deixar sequelas", acrescenta a Dr.ª Helena Pité, do departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
Quanto à anafilaxia, os medicamentos, os alimentos, a picada de insetos ou, mais raramente, a alergia ao látex são as causas mais comuns deste tipo de reação "que pode assumir formas muito graves e que requer tratamento imediato, sendo a adrenalina o tratamento de primeira linha", descreve a Dr.ª Elisa Pedro.
Em termos de gravidade, "a urticária, a dermatite atópica, e inclusivamente a dermatite de contacto, podem ter formas de apresentação grave, sendo necessário por vezes efetuar tratamento com imunossupressores ou imunomodeladores. A avaliação da área de extensão das lesões, a intensidade do prurido e a interferência na qualidade de vida permitem avaliar a gravidade destas doenças. A anafilaxia pode colocar a vida do doente em risco se não for reconhecida e tratada imediatamente", reforça a especialista do Hospital de Santa Maria.
O diagnóstico das alergias cutâneas consiste, essencialmente, num conjunto de critérios clínicos e está ao alcance da generalidade dos médicos. "Os casos mais graves devem ser referenciados a consultas de especialidade onde é possível a realização de testes diferenciados, nomeadamente os testes cutâneos (para alergénios inalantes, alimentos, medicamentos e veneno de himenópteros), os testes epicutâneos na dermatite de contacto. Relativamente ao tratamento, as formas mais graves constituem por vezes desafios que necessitam de intervenções multidisciplinares do especialista", recomenda a Dr.ª Elisa Pedro.
Doença alérgica nos CSP
O médico de família pode acompanhar grande parte destas situações dado que a maioria assume formas de apresentação ligeiras ou moderadas. Contudo, as formas mais graves com envolvimento de uma área significativa da pele, que interferem na qualidade de vida ou as formas refratárias ao tratamento, devem ser referenciadas para um médico especialista.
Segundo a Drª Ana Célia Costa, na urticária crónica os medicamentos de primeira linha são os anti-histamínicos, mas em cerca de 30% dos doentes podem não ser suficientes para o controlo dos sintomas de urticária. No entanto, existem terapêuticas alternativas eficazes, algumas de uso exclusivamente hospitalar em centros de referência.
"Todos os casos de anafilaxia de causa conhecida ou não devem ser referenciados a uma consulta de Imunoalergologia, a fim de se tentar identificar a causa da anafilaxia e implementar medidas preventivas de evicção e um plano de ação e terapêutica específica", referem os especialistas.
Terá lugar, no próximo dia 5 de abril, em Aveiro, a edição de 2014 da Reunião da Primavera da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), este ano dedicada às manifestações cutâneas das doenças imunoalérgicas. Em entrevista, os elementos da direção da SPAIC, (Drª. Elisa Pedro, Prof. Doutor Pedro Martins, Prof. Doutor João Fonseca, Prof. Doutor Luís Delgado), assim como alguns do/as conferencistas que apresentarão os diversos temas destacam algumas das questões que serão discutidas no evento.

