O reforço de infraestruturas e de recursos humanos, a criação de um modelo centralizado de financiamento e de uma rede nacional de referenciação, bem como o investimento na geração de evidência e o incremento de apoios aos doentes e cuidadores são as prioridades identificadas pelos peritos envolvidos na iniciativa SHARP.
Henrique Lopes, Diretor do NCGH, sublinha a importância deste relatório como “uma ponte entre a inovação científica e a decisão política”, crucial para a adoção sustentável e equitativa destas terapias. O desafio, acrescenta, é “transformar as recomendações em decisões que façam a diferença na vida dos doentes e na capacidade de resposta do sistema de saúde”.
Este trabalho reuniu os principais stakeholders do ecossistema da saúde, incluindo profissionais de saúde, investigadores, decisores políticos e executivos, bem como doentes, associações de doentes, e cuidadores, com o objetivo de definir uma estratégia coordenada e sustentável para garantir um acesso equitativo e atempado a este tratamento inovador.
As terapias celulares, como as CAR-T, representam um avanço significativo, na medida em que podem ser uma resposta para os doentes com cancros hematológicos que não respondem aos tratamentos convencionais. Recorde-se que a terapia com células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell therapy) consiste numa imunoterapia personalizada, na qual os linfócitos T do próprio doente são geneticamente modificados para reconhecer e eliminar células cancerígenas. Apesar da sua eficácia clínica comprovada, o acesso a este tratamento em Portugal ainda enfrenta desafios significativos.
Como alerta Maria Gomes da Silva, médica hematologista do IPO de Lisboa e membro do Steering Committee (SC) da iniciativa SHARP, “apenas um número limitado dos doentes com indicação potencial para terapia com células CAR-T tem acesso a ela”. Para a especialista, é fundamental “tornar mais claros, homogéneos e eficazes os percursos dos doentes candidatos”.
Também Fernando Leal da Costa, também médico hematologista do IPO de Lisboa e membro do SC, reforça a necessidade de “definição da distribuição territorial dos centros de referência para tratamentos com células CAR e a organização dos fluxos de doentes”.
Para superar estes entraves, a iniciativa SHARP apresenta cinco eixos estratégicos de ação:
1-Investir na capacitação dos profissionais e dos serviços de saúde, garantindo a alocação dos recursos necessários
Criar equipas dedicadas às terapias celulares.
Agilizar o acesso a meios complementares de diagnóstico e terapêutica.
2-Criar um programa vertical de financiamento centralizado
Garantir financiamento uniforme e sustentável para os centros de tratamento.Negociar o preço da terapia, tornando-a mais acessível e equitativa.
3-Desenvolver uma rede nacional de referenciação para terapias celulares e uniformizar os critérios de elegibilidade para tratamento
Harmonizar os critérios e o processo de referenciação e tratamento.
Criar uma rede integrada de centros de tratamento.
4-Assegurar o suporte socioeconómico, logístico e formativo necessário ao paciente, seu cuidador e família
Estabelecer redes de apoio comunitário ao longo da jornada de tratamento.
Criar uma resposta social formal perante a inexistência ou incapacidade do cuidador.
5-Robustecer a capacidade de gerar e divulgar evidência de mundo real na área das terapias celulares
Criar um Registo Nacional de Terapias Celulares.
Desenvolver estudos com evidência do mundo real.
O relatório foi apresentado no dia 8 de julho, no evento “Rumo à Inovação: Caminhos para Expandir o Acesso às Terapias Celulares”, na Assembleia da República, em Lisboa. Conheça aqui a versão resumida do relatório.
A Iniciativa SHARP é coordenada pelo NOVA Center for Global Health (NCGH), unidade de investigação da NOVA Information Management School (NOVAIMS), com o apoio da Kite, uma empresa da Gilead Sciences.


