Cancro do pulmão em Portugal: a urgência do rastreio e o impacto do diagnóstico precoce na sobrevivência

01/08/25
Cancro do pulmão em Portugal: a urgência do rastreio e o impacto do diagnóstico precoce na sobrevivência

A propósito do Dia Mundial do Cancro do Pulmão, assinalado a 1 de agosto, Fernanda Estevinho, oncologista no Hospital Pedro Hispano, ULS Matosinhos, alerta para a elevada mortalidade associada à doença em Portugal, sublinha a importância do rastreio em populações de alto risco e destaca a necessidade de um diagnóstico precoce, capaz de alterar significativamente o prognóstico e a sobrevida. A especialista defende a implementação urgente de um programa nacional de rastreio, sustentado por evidência científica robusta e pelo exemplo de outros países europeus. Assista à entrevista.

Na sua fase inicial, “pode dar poucos sintomas” e, por isso, “em mais de metade dos doentes o diagnóstico já é realizado com doença avançada ou metastizada”. A diferença no prognóstico é significativa: “Quando o tumor é localizado numa fase muito precoce, chegamos a ter taxas de sobrevivência aos cinco anos de 92%”. Nestes casos, “a sobrevivência é cerca de sete vezes maior do que nos estadios avançados”.

Em Portugal, começa a haver avanços: “Foi criada uma comissão para delinear o rastreio do cancro do pulmão”, afirma, destacando o papel da Pulmonale, Associação da qual é tesoureira. “A Pulmonale teve um projeto-piloto de rastreio do cancro do pulmão, que apresentou quer à Direção Executiva, quer ao Ministério da Saúde, e que foi publicado num artigo da Acta Médica Portuguesa, em 2024.”

O modelo preconizado destina-se a populações de alto risco: “Pessoas com hábitos tabágicos, fumadores atuais ou que tenham deixado de fumar recentemente, com uma carga tabágica igual ou superior a 30 maço-ano, e com idades entre os 50 e os 70 anos.” O exame base seria uma TAC de baixa dose, repetida em intervalos definidos, “com oferta simultânea de consultas de cessação tabágica”.

A especialista destaca, ainda, a criação da Aliança, uma iniciativa nacional que junta várias entidades ligadas ao cancro do pulmão, como o Grupo de Estudos de Cancro do Pulmão (GECP), a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), a Pulmonale, a Ordem dos Médicos e sociedades científicas, em articulação com a indústria farmacêutica. “A Aliança tem quatro pilares fundamentais: aumentar o conhecimento da população sobre o cancro do pulmão, promover o rastreio em grupos de alto risco, garantir diagnóstico e intervenção precoce, e melhorar os cuidados prestados aos doentes e aos cuidadores.”

“Aquilo que é previsto acontecer a alguém com cancro do pulmão hoje é muito diferente daquilo que era há anos”, assegura. Graças aos avanços na imunoterapia e nas terapias alvo, é possível obter resultados inesperados. “Esta esperança não seria possível sem investigação”, reforça. “Desde a investigação básica feita em laboratório, aos ensaios clínicos já disponíveis em Portugal, que permitem o acesso a terapêuticas inovadoras em condições de segurança.”

Cada doente é único e a resposta ao tratamento varia, pelo que a abordagem multidisciplinar é fundamental: “Temos uma equipa alargada, com Anatomia Patológica, Radiologia, Cirurgia, Cuidados Paliativos, Pneumologia, Oncologia, Psicologia. É muito importante que o doente saiba que não está sozinho”, destaca Fernanda Estevinho.

Partilhar

Publicações