Como podem as redes sociais ser usadas para melhorar a saúde renal?

11/09/25
Como podem as redes sociais ser usadas para melhorar a saúde renal?

O nefrologista Hugo Diniz foi um dos especialistas a integrar a comitiva portuguesa que participou no 62.º Congresso da European Renal Association (ERA). Este ano, o encontro major da Nefrologia na Europa decorreu de 4 a 7 de junho em Viena, na Áustria, e teve como mote “Game Changers em Nefrologia”. Em entrevista à News Farma, o especialista da Unidade Local de Saúde de S. João (ULS de S. João) falou dos momentos em que participou no programa do encontro.

Por tradição, o evento da ERA consagra o primeiro dia à realização de cursos pré-congresso – chamados de Continuing Medical Education – que, divididos por diversas sessões paralelas, têm por objetivo fazer uma abordagem mais teórico-prática aos temas, sendo que existem sempre duas sessões práticas temáticas dedicadas à colocação de cateteres de hemodiálise e à realização de biópsias renais. E foi precisamente enquanto formador que Hugo Diniz participou no curso “Kidney Biopsy demonstration and Practice”, acompanhado pelos especialistas Emily McQuarrie, do Reino Unido e Loreto Gesualdo, de Itália. Na formação, contou, “cada participante tem a oportunidade de experimentar, colocar dúvidas e discutimos também alguns aspetos práticos das biópsias renais”, um modelo que agrada a quem participa já que as inscrições esgotaram, e não apenas com especialistas europeus. Isto porque, explicou Hugo Diniz, “o [congresso da] ERA tem atraído cada vez mais gente de todo o mundo, inclusive um dos países com maior participação este ano foi, curiosamente, os Estados Unidos da América”. 

Esta componente mais interventiva da Nefrologia está, na perspetiva do especialista, “felizmente bastante desenvolvida no nosso País, mas isso não é verdade na maior parte dos países da Europa, onde os nefrologistas cada vez menos têm uma participação ativa nesse tipo de procedimentos”. Especialidades como a Radiologia de Intervenção ou a Cirurgia Vascular têm vindo a ganhar espaço neste domínio noutros países do continente europeu, muito embora este tipo de formações seja cada vez mais procurado por profissionais mais jovens que se dedicam à Nefrologia. O motivo desse interesse, identifica Hugo Diniz, prende-se com dois aspetos: “Primeiro as gerações mais novas querem recuperar isso [a posição de destaque neste procedimentos] e então procuram muito esse tipo de formação. Depois a workforce está mais reduzida, portanto depender de outras especialidades atrasa muito o tempo de resposta e os bons cuidados aos doentes”.

As redes sociais ao serviço da awareness da doença renal 

No último dia do congresso, Hugo Diniz participou como orador na sessão “How to raise kidney disease awareness”, que foi moderada por Kate Stevens, do Reino Unido, e Manfred Eugen Griege, da Alemanha. 

O tema da intervenção do nefrologista nacional foi “Social Media as a new tool for spreading kidney health” e, para contextualizar o tema, Hugo Diniz lembrou que desde 2019 é um dos elementos responsável pelas redes sociais na equipa da ERA, tendo mesmo chegado a liderar o grupo entre 2023 e 2024, nos congressos que decorreram em Milão e Estocolmo. “A minha principal mensagem foi mostrar que as redes sociais são uma plataforma que tem um alcance que nenhuma outra tem. Dois terços da população mundial utiliza redes sociais, mesmo em regiões que não têm acesso, por exemplo, a serviços bancários, as pessoas têm um telemóvel e usam as redes sociais”, sublinhou. Daí que as várias plataformas possam ser uma ferramenta importante para profissionais de saúde, para académicos, mas também para doentes e cuidadores procurarem informação, formarem grupos de apoio e “isto tem um impacto que às vezes nos passa um bocadinho ao lado, aos clínicos”, admitiu. 

Hoje, tiktokers e instagramers têm milhares, ou mesmo milhões, de seguidores e conseguem chegar a um público muito alargado com uma proximidade que seria difícil obter pelos meios tradicionais. “Isto pode ser utilizado não só para o tal suporte peer-to-peer, portanto, os pacientes partilham histórias com outros pacientes e ajudam-se mutuamente, reduzindo [desta forma] o sentimento de isolamento. É muito bom para a saúde mental que, muitas vezes, é esquecida, especialmente quando tratamos doentes jovens. Mas podemos alavancar estas plataformas dos pacientes como maneiras de aumentar o awareness para a doença renal”, referiu o nefrologista. 

Na opinião de Hugo Diniz, as redes sociais “também podem servir para partilhar mais rapidamente a informação em termos de investigação e reduzir o gap entre a publicação de artigos que possam ter um impacto na clínica e a sua implementação”, além de poderem igualmente servir como uma plataforma importante para se criarem grupos dentro das especialidades que tratam doenças raras, ou que trabalhem áreas da Nefrologia com poucos especialistas e, assim, ajudarem à partilha de experiências e ao desenvolvimento de competências nessas patologias.

Por todas estas potencialidades, Hugo Diniz considera que “é fundamental para os médicos serem proficientes com estas ferramentas e não só serem proficientes, mas também saberem comportar-se [nas redes sociais]. O profissionalismo digital é essencial na nossa profissão, não só porque nós interagimos na Internet como médicos, mas também para melhorar a nossa aprendizagem”.

A acompanhar o especialista nacional nesta sessão esteve Charles J. Ferro, do Reino Unido, que falou sobre “Strong kidneys campaigns: understanding unmet needs for a better”, e também Emma Horton-Wright, do mesmo país, que fez uma conferência sobre o tema “Raising Kidney Disease Awareness Through Publishing Research”.

Em termos de balanço do encontro anual da ERA, o nefrologista da ULS de S. João enalteceu a vontade da sociedade científica alargar o leque de membros participantes no congresso, tanto em termos de proveniência dos oradores, como no leque de idades dos mesmos. “A ERA, nos últimos anos, tem-se preocupado muito com a gerar um sentimento de comunidade”, frisou, lembrando que a participação portuguesa tem sido bastante profícua e com números crescentes. “Acho que tem um impacto bastante interessante para os portugueses, que ao verem compatriotas em locais de destaque ou a dar sessões num congresso com a magnitude do ERA” se podem sentir inspirados e motivados para se envolverem em iniciativas da ERA. 

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