Prémios Pfizer: já foi entregue a mais antiga distinção na investigação biomédica
10/12/14
Os Laboratórios Pfizer e a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (SCML) realizaram ontem a cerimónia de entrega dos Prémios Pfizer de Investigação, na Sala dos Atos da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa (FCML). João Taborda Barata e Henrique Veiga-Fernandes, ambos do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina de Lisboa e Hélder Maiato, do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) são os cientistas vencedores da 58.ª edição dos Prémios Pfizer.A entrega dos prémios, presidida pela secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, contou com a presença do presidente da SCML e Presidente do Conselho de Administração da FCML, Prof. José Caldas de Almeida e da diretora geral executiva dos Laboratórios Pfizer, Ana Torres.
Reconhecida como a mais antiga distinção na investigação biomédica em Portugal, os Prémios Pfizer visam estimular e desenvolver a investigação científica, cobrindo todos os ramos da medicina humana. Os Prémios Pfizer foram criados em 1955 e, ao longo de décadas de existência, já premiaram mais de 500 investigadores.
Na edição deste ano foram apresentados 72 trabalhos para avaliação, correspondendo 51 candidaturas à área da Investigação Básica e 21 á área da Investigação Clínica. O júri, composto por investigadores, professores universitários e médicos de reconhecido mérito, norteou as decisões com base em rigorosos critérios científicos, definidos em regulamento.
Os Prémios Pfizer distinguem os melhores trabalhos de investigação básica e clínica, elaborados total ou parcialmente em instituições portuguesas por investigadores portugueses ou estrangeiros e conferem anualmente um prémio monetário no valor de 20 mil euros para cada um dos projetos vencedores em cada área.
Eis o resumo dos trabalhos vencedores:
A investigação clínica: um novo futuro para a leucemia
Na categoria de investigação clínica, foi vencedor o projeto liderado pela de João Taborda Barata do IMM, intitulado "CHK1 overexpression in T-cell acute lymphoblastic leukemia is essential for proliferation and survival by preventing excessive replication stress", este trabalho de investigação obteve resultados bastante promissores no que respeita ao potencial desenvolvimento de uma terapêutica alternativa para tratamento da leucemia linfoblástica aguda de células T (LLA-T), um tipo de leucemia bastante frequente em crianças. A investigação, publicada na revista científica Oncogene, estudou o papel de uma proteína (CHK1) em doentes e concluiu que a mesma se encontra sobre expressa e hiperativada, permitindo assim a viabilidade das células tumorais e proliferação da doença.
"Demonstrámos que a expressão do gene CHK1 está aumentada neste tipo de leucemia. O curioso é que o CHK1 serve como uma espécie de travão para a multiplicação celular, mas acaba por ajudar as células leucémicas porque as mantém sob algum controlo. Se inibirmos o CHK1 as células tumorais ficam tão "nervosas" – o que chamamos de 'stresse replicativo' – que acabam por morrer. O CHK1 constitui, por isso, um novo alvo molecular para potencial intervenção terapêutica em leucemia pediátrica", afirma João Barata.
A equipa de investigadores utilizou um composto farmacológico (PF-004777736) para inibir o gene CHK1 e verificou que o composto induzia a morte de células de LLA-T sem afetar as células T normais. A investigação conseguiu observar que a utilização daquele composto farmacológico é capaz de interferir na proliferação das células afetadas e de interromper o seu ciclo de vida, diminuindo o desenvolvimento da doença.
Apesar de este tipo de leucemia ser um cancro que apresenta grande sucesso terapêutico nas crianças, os efeitos secundários resultantes das terapias atuais são bastante consideráveis. O trabalho de investigação liderado por esta equipa do IMM poderá vir a permitir aumentar a eficácia na luta contra este tipo de patologia.
A investigação básica: travões do "cronómetro" da célula
Quanto aos dois projetos distinguidos na categoria de investigação básica, um deles, da autoria da equipa do investigador Hélder Maiato do IBMC, intitula-se "Feedback control of chromosome separation by a midzone Aurora B gradient", publicado na conceituada revista Science. O modelo apresentado neste estudo promete revolucionar o nosso conhecimento sobre a vida e como ela se transmite e descreve um novo ponto de controlo na divisão das células.
Os autores demonstraram que a região central das células em divisão é capaz de medir a posição dos cromossomas, estabelecendo assim um novo paradigma no controlo da divisão celular. O mecanismo agora revelado funciona como uma "régua" que atrasa um dos últimos passos da divisão celular – a reformação dos novos núcleos – para garantir que os cromossomas se distribuem corretamente entre as células filhas.
Todos os passos da divisão celular são sequenciais e só se inicia um novo passo se o passo anterior se desenrolar com sucesso. Estas transições são reguladas pelos denominados pontos de controlo, uma espécie de posto fronteiriço. Como explica Irina Matos, uma das autoras do trabalho, "os pontos de controlo servem, precisamente, para fazer a verificação de que a etapa anterior foi cumprida na plenitude e sem erros". São conhecidos inúmeros mecanismos que permitem evitar erros, parando a divisão em determinados momentos, fazendo revisões, retificando erros e, caso isto seja impossível, conduzindo as células para autodestruição.
O modelo sugerido por esta equipa representa uma nova visão dos pontos de controlo que, segundo os autores, não podem ser olhados apenas como travões do "cronómetro" da célula, mas devem também ser olhados como "réguas" que controlam espacialmente uma determinada transição. Esta "régua" define-se através de um "gradiente químico que deteta atrasos no afastamento dos cromossomas e retarda o processo até que todos tenham atingido uma distancia mínima de segurança" defende Olga Afonso também autora do trabalho.
A investigação básica: Nova molécula descoberta, essencial na transplantação
"The neurotrophic factor receptor RET drives haematopoietic stem cell survival and function" é o título do terceiro projeto vencedor, liderado pelo investigador Henrique Veiga-Fernandes do IMM. O estudo revela uma nova solução para a expansão e transplantação das células estaminais da medula óssea.
As células estaminais hematopoiéticas (HSC) dão origem a todas as células do sangue. A transplantação destas células tem sido utilizada extensivamente no tratamento de várias doenças, sendo as fontes principais a medula óssea, o sangue do cordão umbilical e as células progenitoras no sangue periférico.
Contudo, os protocolos de transplantação ainda enfrentam sérios obstáculos, nomeadamente a baixa eficiência dos enxertos devido ao número limitado de HSC disponíveis. Desta forma, a identificação de novos alvos biológicos que melhorem a sobrevivência das células estaminais é um aspeto crítico para melhorar a eficiência da transplantação de medula e qualidade de vida dos doentes.
Neste estudo foi identificada uma nova molécula, RET, que é expressa pelas células estaminais hematopoiéticas, mas que desempenha também um papel importante no sistema nervoso. Este trabalho demonstra que RET é essencial para a sobrevivência e função das células estaminais, tendo uma particular importância na transplantação de medula óssea. RET atua assim como um "interruptor" nas células estaminais hematopoiéticas. Quando "ligado", RET controla seletivamente a sobrevivência das HSC através da regulação dos genes da família BCL2. Finalmente determinou-se que a ativação deste "interruptor" molecular em células estaminais do sangue do cordão umbilical humano aumenta a eficiência destas células em transplantes abrindo assim portas para uma futura utilização deste sistema na clínica.
Este trabalho demonstra ainda que fatores utilizados pelo sistema nervoso são parte integrante dos locais onde se encontram as HSC na medula, revelando assim que as células estaminais hematopoiéticas e os neurónios podem ser regulados por mecanismos semelhantes.


