SPC alerta para decisões políticas que podem “errar o alvo” por falta de suporte estatístico

25/08/16
SPC alerta para decisões políticas que podem “errar o alvo” por falta de suporte estatístico

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) lamenta a falta de suporte real estatístico nas tomadas de decisão política no que diz respeito a temas ligados à saúde cardiovascular em Portugal.

A SPC salienta ainda que a manutenção de uma base de dados de registos clínicos permitirá traçar um retrato da prevalência das doenças cardiovasculares em Portugal. A par disso, esses dados podem servir para a melhoria de um conjunto de atividades e serviços, nomeadamente suporte estatístico a legisladores e também à Investigação Científica, assim como suporte estatístico aos media e, em última análise, estimular a inserção social.

A SPC chama ainda a atenção para as dificuldades experimentadas pelos investigadores na recolha de dados. Os dados não provém sempre da maioria dos centros pelo que nem sempre espelham corretamente a realidade nacional. Este facto dificulta que estes dados possam ser considerados nas tomadas de decisões políticas, sociais e clínicas.

Para a SPC a manutenção de um banco estatístico dedicado à saúde cardiovascular em Portugal é um dos alicerces que poderá garantir a adequação da intervenção organizativa e da legislação Portuguesa à realidade da saúde cardiovascular nacional! A Sociedade Portuguesa de Cardiologia defende o reforço das condições de funcionamento do seu Centro Nacional de Colecção de Dados em Cardiologia (CNCDC) para permitir disponibilizar aos decisores e investigadores os dados constantes deste banco de dados, que é o maior e melhor acervo português relativo à saúde cardiovascular. Desta forma conhecimento sobre o panorama da nossa Saúde cardiovascular e ficaremos em melhores condições para o melhorar.

É de recordar que a SPC criou, no início da década de 2000, o CNCDC) que visa apoiar o desenvolvimento de estudos cooperativos nacionais e possibilitar a recolha, armazenamento e investigação de dados estatísticos relativos às doenças cardiovasculares em Portugal. A constituição e manutenção de bases de dados de registos clínicos sobre várias patologias permite traçar um retrato da prevalência das doenças cardiovasculares em Portugal, avaliar o modo como os doentes são estudados e tratados assim, como os resultados clínicos obtidos. O conhecimento destes resultados globais fica periodicamente disponível a nível nacional.

Cada centro interveniente tem conhecimento apenas dos seus próprios dados e obtém a sua comparação com os resultados globais do país. O conhecimento desta informação permitirá melhorar várias facetas das nossas atividades e serviços, tais como:

  • Suporte estatístico a decisores e legisladores: ao ter uma perceção clara das tendências e dos resultados na saúde cardiovascular em Portugal, os dirigentes com responsabilidade política disporão de mais e melhor informação para intervir na realidade em termos organizativos ou legislativos;
  • Apoio à Investigação Científica nos Serviços de Cardiologia Portugueses, que podem confrontar os seus resultados com os dos outros centros congéneres e efectuar investigação específica sobre os resultados globais da patologia estudada;
  • Informação estatística aos media: a existência de um banco de dados sobre a prevalência de doenças cardiovasculares em Portugal permite fornecer informação fidedigna aos media com dados reais sobre a prevalência das patologias cardiovasculares;
  • Estimular o equilíbrio nacional na disponibilização dos recursos e resultados em Saúde: A disponibilização destes dados fomentará a consciencialização social sobre o tipo e a qualidade dos cuidados prestados nos diferentes pontos do país, promovendo uma distribuição equilibrada dos cuidados de Saúde.

A criação do Centro Nacional de Dados em Cardiologia teve como objectivo a realização de estudos no âmbito das doenças cardiovasculares, envolvendo diferentes estruturas de saúde nacional como Serviços de Cardiologia e de Medicina, Unidades de Cuidados Intensivos Coronários, Centros de Saúde, entre outros. Esses estudos têm assumido a forma de Registos Nacionais, Estudos Multicêntricos ou Estudos Epidemiológicos. O Dr. Jorge Mimoso, Presidente do CNCDC, adianta que os dados recolhidos pelo CNCDC podem “permitir a avaliação dos resultados das políticas de saúde e promover eventuais alterações dessas políticas”. Os estudos multicêntricos podem permitir a produção de investigação de grande fôlego, com grandes populações de doentes fornecendo respostas clínicas importantes e revelando a realidade nacional. “Os estudos multicêntricos permitem descobrir desvios, que devem motivar alterações de procedimentos locais. Por outro lado, permite o benchmarking das instituições participantes, incitando a melhoria do cumprimento das recomendações internacionais. Estas medidas podem resultar numa redução da mortalidade cardiovascular em Portugal”, reforça o Dr. Jorge Mimoso.

A Dra. Maria João Vidigal, Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e responsável pelo CNCDC, destaca que a colheita de dados clínicos através da coordenação e promoção de estudos multicêntricos faculta a investigação clínica e o conhecimento do panorama das doenças cardiovasculares em Portugal. A subsequente “disponibilização destes dados, no seio da sociedade, permite alargar o conhecimento da realidade nacional. Assim, estes dados podem ser utilizados como um suporte estatístico real, na construção de políticas de saúde cardiovascular.” Na visão da Dra. Maria João Vidigal os registos contínuos têm produzido informação necessária ao entendimento da morbilidade e mortalidade em Portugal, relacionadas com diferentes patologias. Além disso, “os dados recolhidos, permitem verificar a adesão às recomendações internacionais e avaliar o impacto do diagnóstico precoce, da aplicação de novas terapêuticas, bem como o da implementação de estratégias de prevenção”, esclarece a Dra. Maria João Vidigal.

Nas palavras do Presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Dr. Miguel Mendes, “o CNCDC tem um trabalho bastante útil no suporte à investigação e na definição do retrato da saúde cardiovascular dos Portugueses. Na sua opinião, “é, no entanto, necessário que os serviços médicos tenham condições para o preenchimento cabal dos registos nacionais, realizado por profissionais, em tempo oportuno e de forma semi-automática.” Segundo o Dr. Miguel Mendes, hoje em dia, muitos dos dados não estão devidamente atualizados devido à indisponibilidade dos clínicos, em consequência da pressão do trabalho assistencial que os impede de se dedicarem a esta tarefa. Assim, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia defende o envio semi-automático dos dados a partir das bases de dados próprias dos diferentes serviços envolvidos, onde deverá haver uma equipa multidisciplinar, constituída por médicos, enfermeiros e administrativos que realize a recolha, validação e envio destes dados.vNa perspetiva do Dr. Miguel Mendes, é indispensável que os registos estejam associados ao Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO).

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