O envolvimento dos médicos de família no tratamento do doente cardíaco

28/04/13

ca2 5346eCarlos Aguiar, presidente do 34.º Congresso Português de Cardiologia, evento que está a decorrer em Vilamoura até dia 30 de abril, aborda algumas das temáticas em foco na grande reunião anual da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), realçando os momentos mais direcionados para os médicos de família que, segundo refere, estão cada vez mais a envolver-se no tratamento do doente cardíaco, o que é "muito desejável".


Carlos Aguiar começa por explicar o significado do lema do congresso: "A evidência, a prática e as políticas". O enfoque na "evidência" prende-se com o facto de, além do conhecimento científico e do apoio à investigação, o exercício da medicina implicar também a responsabilidade das sociedades médicas e científicas.

 

"O grande objetivo de uma Sociedade como a SPC é promover o desenvolvimento da ciência da sua área ao serviço da população do seu país", afirma.

 

Prática porque "o exercício da medicina pode ser melhorado, se pudermos monitorizar, aferir e melhorar a prática clínica". Carlos Aguiar entende que "os registos clínicos implementados pela SPC, particularmente nas áreas das síndromes coronárias agudas e da Cardiologia de Intervenção, têm sido úteis para aferir a qualidade da prática médica e dos cuidados prestados em Medicina Cardiovascular".

E políticas porque, como menciona, "uma sociedade científica deve ser aberta para a sociedade civil e para quem faz a regulamentação nas políticas de saúde", sendo que estas influenciam a criação do conhecimento científico, a aprovação e regulamentação da sua aplicação no cidadão e a implementação prática da melhor evidência clínica.

O também vice-presidente da SPC alerta para o facto de os recursos para a saúde não serem ilimitados, daí a importância de discutir o seu "uso racional". Além disso, acrescenta, "a Medicina Cardiovascular é muito rica em formas e meios diferentes de tratar as doenças, havendo por isso opções que se podem fazer".


"Evidência, prática e as políticas – a voz do cidadão", "Acessibilidade dos doentes com patologia cardiovascular aos cuidados de saúde", "Imagem em Cardiologia: novos marcadores prognósticos que influenciam a decisão clínica" e "e-Health e o futuro da Medicina Cardiovascular" são alguns dos temas que merecerão destaque no maior evento nacional da área da Cardiologia.

Sessões destinadas aos médicos de família

O programa do 34.º Congresso Português de Cardiologia não esqueceu as atividades especificamente dirigidas à MGF, como um curso de anticoagulação na fibrilhação auricular, que se realizou dia 27 de abril e que teve este ano a sua 1.ª edição. "Foram apresentados alguns casos clínicos práticos e os participantes tiveram oportunidade de votar através de televoter", adianta o vice-presidente da SPC, avançando estar prevista, para este ano, a realização de outras edições, com o objetivo de atingir um maior número de médicos de família.


No mesmo dia realizou-se também um curso sobre diabetes que, apesar de ser dirigido sobretudo a cardiologistas, também teve como público-alvo os especialistas em MGF e em Medicina Interna com interesse na vertente vascular da diabetes. Para Carlos Aguiar, embora muitos defendam que se trata de uma patologia endocrinológica, a diabetes é, sobretudo, uma doença cardiovascular.

E justifica: "A população portuguesa tem 30-40% de probabilidade de morrer de causa cardiovascular, enquanto a população diabética tem quase 80%."


"Ser muito idoso em tempos de crise"

Outro dos momentos vocacionados para os médicos de família será a sessão oficial conjunta entre a SPC e a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), uma iniciativa que decorreu pela primeira vez em 2012 e que, desta feita, estará subordinada ao tema "Ser muito idoso em tempos de crise".

"A Cardiologia e a MGF partilham cada vez mais doentes com idade avançada, frequentemente com mais de 80 anos", avança, sublinhando que as doenças cardiovasculares são muito frequentes nesta faixa etária.

De acordo com o cardiologista, nesta sessão, que se realiza dia 30 de abril, serão discutidas as especificidades do idoso e a maior dificuldade que existe em tratá-lo, abordando questões como a adesão à terapêutica e o risco de que a intervenção possa representar maior risco que benefício.

O presidente do congresso refere que todo o programa científico do evento foi desenhado para que os participantes, cardiologistas ou não, pudessem fazer uma revisão e atualização de conhecimentos.
 

O doente cardíaco em MGF

Carlos Aguiar chama a atenção para a responsabilidade do especialista em MGF no tratamento das doenças cardiovasculares. "O médico de família está cada vez mais a envolver-se no tratamento do doente cardíaco e isso é muito desejável", refere, realçando que "o cardiologista não deve tomar algumas decisões estratégicas de decisão terapêutica do doente sem envolver o assistente de MGF, assim como médicos de outras especialidades".

Segundo o responsável, no modelo atual da medicina, os cuidados de saúde primários assumem cada vez mais um papel importante na orientação inicial e no seguimento de múltiplas doenças, inclusivamente as cardíacas, que abrangem a hipertensão arterial, a insuficiência cardíaca, a doença coronária e a fibrilhação auricular.


A importância do exercício físico

Fora da sua atividade clínica, Carlos Aguiar ocupa uma parte dos seus tempos livres a ler, a ouvir música e a ver televisão, sobretudo programas relacionados com a Natureza e a vida selvagem. Mas a sua "receita" para conseguir gerir o stress diário prende-se com a prática de exercício físico.

"Quando feito regularmente, o exercício físico ajuda a descomprimir as tensões que se vão acumulando ao longo do dia de trabalho", garante. Esta prática proporciona-lhe "tranquilidade" e "tolerância", dois atributos fundamentais para conseguir resolver os problemas que vão surgindo.

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