“A tecnologia, em si, nada fará contra a relação médico-doente. O futuro dessa ligação depende de nós”

20/10/17
“A tecnologia, em si, nada fará contra a relação médico-doente. O futuro dessa ligação depende de nós”

Ao final da tarde de ontem, várias personalidades de renome juntaram-se nos Montes Claros, em Lisboa, para debater o impacto das novas tecnologias aplicadas à Saúde, enquanto promotoras de uma maior humanização da Medicina. Em entrevista à News Farma, o Prof. Doutor Júlio Machado Vaz, um dos oradores convidados, diz acreditar que a tecnologia nada fará contra a relação entre médico e doente. “O futuro dessa relação depende de nós e de fazermos aquilo que o Prof. João Lobo Antunes tantas vezes repetiu: «Pensar a Medicina». Se o fizermos não haverá qualquer problema”.

A conferência “Medicina Humanizada num Mundo Digital”, organizada pela Astellas, contou com a presença do Prof. Doutor Júlio Machado Vaz, psiquiatra, da Dr.ª Cristina Semião, healthcare manager na IBM, do Eng. Pedro Janela, CEO da WYgroup, e do Dr. Daniel Ferreira, cardiologista. De acordo com as declarações do Prof. Doutor Júlio Machado Vaz, no final houve consenso: “todos concordámos que a tecnologia deve ser encarada como uma ajuda para a Medicina e, em alguns casos, pode até potenciar a relação médico doente não só por aquilo que permite em termos técnicos, mas por libertar o médico para uma maior disponibilidade para esta relação”.

 

Uma visão antropológica

A principal preocupação do especialista em psiquiatria, relativamente á introdução das novas tecnologias associadas à Saúde, centra-se na possibilidade do digital menosprezar uma dimensão fundamental da profissão - a consulta e o diálogo. De acordo com o Professor, a cada vez mais se verifica uma conceção da Medicina centrada no médico e não no doente, através do sobrecarregar dos profissionais com pedidos de indicadores, análises minuciosas, e foco nos processos, colocando potencialmente o doente na sombra. No entanto, defende, não podemos culpar o digital. “Os avanços tecnológicos só se poderiam tornar uma ameaça para aquilo que consideramos a Medicina baseada na relação médico doente, e eu não a concebo de outra forma, se nós, médicos em particular e profissionais de Saúde no geral, encarássemos a tecnologia como uma hipótese de substituição”.

Uma perspetiva otimista da Medicina tecnológica implica, na visão do Prof. Júlio Machado Vaz uma atitude certa perante os avanços tecnológicos. “Se, pelo contrário, os avanços tecnológicos forem pretexto para uma maior preguiça por parte dos profissionais, esperando da tecnologia os diagnósticos, fazendo bateria de análises e desleixando a observação do doente, então seremos culpados de permitir que a tecnologia agrave um problema que já nos tem vindo a preocupar”.

O problema da despersonalização da prática médica não é recente, garante, até porque “não é por acaso que existem Faculdades de Medicina por esse mundo fora que se sentiram obrigadas a introduzir nos currículos disciplinas sobre a relação médico doente”. Quanto à atribuição de responsabilidades, o médico considera que não é possível identificar um culpado: “É evidente que as causas para este desleixo são múltiplas. Algumas delas podem e devem ser-nos atribuídas a nós médicos. No entanto, para sermos justos, temos de admitir que tudo depende também das condições que são proporcionadas aos profissionais de Saúde para exercerem o seu métier. Quando sobretudo os profissionais do Cuidados de Saúde Primários se deparam com dificuldades a nível do número de doentes, do tempo para cada consulta; a nível da fiabilidade dos sistemas informáticos, é muito difícil manter a qualidade da relação médico doente”.

Para perspetivar o futuro, o psiquiatra cita o Prof. Doutor João Lobo Antunes, e garante que a chave do processo é “Pensar a Medicina”. “Se o fizermos não haverá qualquer problema”.

 

Tecnologias da Saúde: o que já há e o que vai surgir

À Dr.ª Cristina Semião coube uma apresentação sobre a Medicina personalizada e baseada na evidência, questionando a sua relevância e o seu timing. A representante da IBM destacou também a importância da computação cognitiva - que é a tecnologia voltada à geração de conhecimento baseado na interpretação e extração de significado de dados, primariamente não-estruturados - e de que forma esta tecnologia está a revolucionar a forma como é praticada a Medicina.

Finalmente, o Eng. Pedro Janela e o Dr. Daniel Ferreira, Cardiologista discutiram o impacto da evolução tecnológica na vida das pessoas, e na Medicina, com especial foco no relacionamento do médico com o doente.

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