Um doente com carências nutricionais que receba alta hospitalar não tem qualquer apoio do Estado para manter a nutrição clínica no domicílio. Portugal é dos poucos países europeus que não comparticipa os alimentos/produtos associados à nutrição clínica ou presta qualquer apoio aos cuidadores.
Os encargos anuais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) com o tratamento das consequências clínicas da malnutrição rondam os 255 milhões de euros, por extrapolação dos dados económicos publicados em Espanha, para a população portuguesa.
De acordo com o chairman da organização local/portuguesa ONCA, médico intensivista e responsável pela Unidade de Cuidados Intensivos I do Hospital de Santo António, Dr. Aníbal Marinho, “é importante permitir a acessibilidade do doente à nutrição clínica quer em ambiente de ambulatório, quer no domicílio, de forma equitativa e sem qualquer tipo de discriminação”.
Para debater estes assuntos vai decorrer entre os dias 12 e 13 de novembro, em Sintra, uma Conferência Internacional que junta diversas entidades do sector da Saúde e que é promovida pela Campanha Optimal Nutritional Care for All (ONCA). Esta é da responsabilidade da European Nutrition Health Alliance (ENHA), organismo que apoia os diferentes países, entre os quais Portugal, na implementação do rastreio nutricional e na otimização dos cuidados nutricionais. Portugal é membro efetivo desta campanha internacional desde 2016 e foi selecionado para organizar a Conferência este ano, entre um leque de 18 países.
De salientar que os membros da ONCA defendem que a erradicação da malnutrição por carência resultaria numa redução significativa dos encargos para o SNS estimando-se uma poupança anual líquida superior a 166 milhões de euros. Por cada um euro investido nesta terapêutica nutricional o SNS pouparia 1,86 euros.
Consequências da malnutrição por carência
A malnutrição de um doente compromete ainda mais a sua saúde, já debilitada, e traz outras consequências que podem ser fatais para o doente: o risco de infeções é 3x superior nos doentes malnutridos; pode desenvolver escaras; má cicatrização das feridas crónicas; complicações pós-operatórias, como pneumonia e insuficiência respiratória; pode provocar o aumento da mortalidade em crianças, adultos e idosos; compromete a mobilidade e a manutenção da independência do doente.
O Dr. Aníbal Marinho aponta a malnutrição por carência como “um grave problema de Saúde Pública, que afeta milhares de pessoas em todo o mundo e que custa anualmente 170 mil milhões só a nível europeu”.
Pode ainda acarretar custos socioeconómicos elevados, tanto para os doentes como para o SNS, uma vez que leva ao prolongamento de internamentos hospitalares e ao aumento da taxa de reinternamentos.


