“A proteína SV2A é uma proteína-chave que está presente em todas as sinapses cerebrais. Ou seja, é um marcador das sinapses cerebrais. O que desenvolvemos foi um radiomarcador (uma substância radioativa) que se liga a essa proteína e que permite visualizá-la com recurso à tomografia de emissão de positrões (PET)”, esclarece o Dr. Tiago Reis Marques. Os investigadores conseguiram confirmar pela primeira vez estas alterações através da técnica de imagem PET.
O objetivo foi “perceber se existia alguma alteração nas sinapses cerebrais nesta doença, se existia alguma redução do seu número. Nós já tínhamos algumas pistas que este era o caso, partindo de dados de autópsias de cérebros de pessoas com esquizofrenia, mas não tínhamos forma de o ver in-vivo. Daí termos escolhido esta proteína, que é um ótimo marcador das sinapses cerebrais”, explica.
O estudo verificou que o cérebro das pessoas com esquizofrenia apresenta níveis mais baixos da proteína SV2A, comparativamente ao cérebro das pessoas sem a doença: “ter uma nova ferramenta que permite caracterizar a distribuição dos cerca de 100 triliões de sinapses que existem no cérebro humano e perceber a diferença na sua distribuição e número representa um avanço significativo na compreensão desta doença. A esquizofrenia é uma doença complexa e das que menos se sabe sobre as suas causas e estes resultados permitem-nos compreender melhor os mecanismos a ela associados”, acrescenta o especialista.
Mediante a descoberta de que existe uma redução desta proteína, uma nova porta terapêutica abre-se, sendo que há mais de 60 anos que não surge um fármaco com um novo mecanismo de ação para o tratamento desta doença.
A investigação continuará no sentido de perceber quando é que a redução acontece, “se é um mecanismo primário, que ocorre logo no início da doença ou mesmo se precede o início desta”, esclarece o Dr. Tiago Reis Marques. Nesse sentido, os investigadores vão estudar pessoas em risco e doentes logo no início da sua doença, sendo um novo campo de investigação sobre o qual muitos outros grupos de investigação se vão debruçar na sequência deste estudo, acredita o especialista.
A esquizofrenia é uma doença mental grave que afeta aproximadamente 1% da população. Esta é uma das mais complexas doenças cerebrais, e os mecanismos subjacentes são ainda pouco conhecidos: “sabe-se que menos de 70% dos doentes respondem aos tratamentos atuais, e só 10% responde totalmente, sendo que a maioria dos doentes, apesar de responderem parcialmente à medicação, continuam ainda a apresentar sintomas”, conclui o Dr. Tiago Reis Marques.


